A chegada da primavera e do verão trouxe um aumento do número de crias de gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) no Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Santo André (CRASSA). Hoje este centro tem 10 juvenis desta espécie em recuperação.
A maioria das crias chega àquele centro em Vila Nova de Santo
André, Santiago do Cacém, depois de cair do ninho. Muitas vezes, este é construído em telhados ou outras estruturas urbanas, onde a devolução aos progenitores nem sempre é possível ou segura, explicou à Wilder Carolina Sampaio Nunes, da direcção técnica do CRASSA.

Outras são juvenis que já abandonaram o ninho para os primeiros voos. Nesta fase de aprendizagem, “aventuram-se a explorar a zona em redor do ninho mas, por ainda não voarem a 100%, ficam mais expostos a ameaças, como colisão com edifícios ou veículos, ou ataque de animais domésticos”.
Há ainda casos, embora menos frequentes, em que os ninhos são destruídos. Carolina Sampaio Nunes lembrou que, “apesar de ilegal, esta prática ainda ocorre, principalmente dentro de cidades, onde o conflito entre humanos e a vida selvagem é maior”.
A maioria das crias recebidas pelo CRASSA chega dos concelhos de Sines, Santiago do Cacém e Odemira. Os resgates são feitos pelo Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, pelos Vigilantes da Natureza do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) ou por cidadãos que encontram os animais.
Alimentação, “creches” e sol para preparar o regresso à natureza
Os cuidados prestados às crias variam consoante o seu estado de saúde. Se apenas caíram do ninho e não apresentam lesões, o principal objetivo é assegurar o seu crescimento até terem capacidade para sobreviver na natureza.
Para isso, as jovens aves recebem uma alimentação adaptada às necessidades nutricionais da espécie, composta por carne, peixe e presas inteiras, complementada com suplementos específicos.
Sendo aves sociais, as crias são mantidas em grupos, formando autênticas “creches”, uma estratégia que favorece o seu comportamento natural e reduz a habituação ao ser humano.

Sempre que possível, também passam parte do dia no exterior, em contentores preparados para o efeito, garantindo a exposição à luz solar e evitando que permaneçam continuamente nas instalações de internamento.
Antes de serem integradas com outras aves, são submetidas a exames, incluindo análises coprológicas, para reduzir o risco de transmissão de doenças. Durante todo o processo é feito um acompanhamento rigoroso da evolução de cada indivíduo.
Mas não são apenas gaivotas-de-patas-amarelas a dar entrada no CRASSA. Nesta época do ano, o centro regista um acréscimo de entradas de cegonhas-brancas, andorinhões e andorinhas, bem como de crias de outras espécies autóctones, residentes e migradoras.
Entre os mamíferos e aves de rapina mais frequentemente admitidos estão raposas-vermelhas, corujas-do-mato, corujas-das-torres e mochos-galegos, enumerou a responsável.
O que fazer se encontrar uma cria?
Os técnicos do CRASSA alertam que nem todas as crias encontradas no solo precisam de ser resgatadas.
O primeiro passo é avaliar se o animal está realmente em perigo ou se tem sinais evidentes de lesões, como dificuldade em mover-se, feridas ou hemorragias. Nesses casos, deve ser recolhido e encaminhado para assistência.
Já os juvenis saudáveis, capazes de se deslocarem e que continuam a ser alimentados ou vigiados pelos progenitores, devem, sempre que possível, permanecer no local. Sair temporariamente do ninho faz parte do desenvolvimento normal de muitas espécies de aves, que aprendem gradualmente a voar e a explorar o ambiente envolvente.
Em caso de dúvida, a recomendação é contactar um Centro de Recuperação de Animais Selvagens ou as autoridades competentes antes de intervir. Para comunicar situações que envolvam fauna selvagem, está disponível a Linha SOS Ambiente e Território, através do número 808 200 520.
Em 2025, o CRASSA registou 508 entradas de animais de 79 espécies diferentes.
As espécies mais comuns no centro foram a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), o andorinhão-preto (Apus apus),a andorinha-dos-beirias (Delichon urbicum), o pardal-doméstico (Passer domesticus) e a raposa-vermelha (Vulpes vulpes).
A principal causa de entrada para as três espécies mais comuns em 2025 foi a queda de ninho/orfão (24%).
A maior afluência de animais no CRASSA deu-se nos meses de junho e julho (22% e 25% do total de entradas, respetivamente). A classe das aves representou 86% das entradas em 2025, seguida pelos mamíferos (12%) e répteis (2%).
Saiba aqui por que as gaivotas se dão tão bem nas cidades.