Esta semana, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA-Birdlife) lançou a iniciativa “Sentinelas do Oceano”. O seu coordenador, Nuno Oliveira, ajuda-nos a compreender qual a situação das aves marinhas de Portugal.
WILDER: Quais as maiores alterações que notaram em relação à situação apresentada no Atlas das Aves Marinhas. O que mudou?
Nuno Oliveira: Esta nova publicação adiciona informação a muitas das espécies trabalhadas anteriormente no Atlas, inclui novas espécies e uma nova abordagem.
Por exemplo, hoje conseguimos caracterizar melhor o efeito negativo que a captura acidental tem em várias populações que ocorrem em Portugal, como por exemplo a cagarra ou a galheta. Também conseguimos perceber que algumas espécies, apesar de apresentarem uma população aparentemente estável, têm tido uma produtividade abaixo do que seria de esperar para uma população de boa saúde, como por exemplo a freira-da-madeira, endémica da ilha da Madeira, ou o painho-de-monteiro, endémico dos Açores.
W: As 66 espécies trabalhadas representam a totalidade das espécies que ocorrem na ZEE de Portugal?
Nuno Oliveira: Não. Apesar de apresentarmos informação sobre 66 espécies, algumas destas não constavam do Atlas das Aves Marinhas e outras que constavam, não foram actualizadas no “Sentinelas do Oceano” por não haver informação nova. No total temos agora informação detalhada sobre 76 espécies. Adicionalmente, ocorrem espécies de forma muito acidental, sobre as quais ainda não temos informação.
W: Que fontes de dados utilizaram? Que peso tiveram os censos marinhos, por exemplo?
Nuno Oliveira: As novas fontes de dados incluíram o seguimento individual com aparelhos electrónicos (por exemplo, GPS) e dados recentes da localização das colónias de reprodução. Os dados de censos marinhos foram utilizados agora para aferir a tendências das populações invernantes em Portugal continental e avaliar o seu estado ambiental, ou seja a sua saúde ou viabilidade.
W: O que mais o preocupa quanto ao futuro das aves marinhas em Portugal, tendo em conta que este é o grupo de aves mais ameaçado do mundo?
Nuno Oliveira: As aves marinhas têm perdido espaço, quer no mar (para se alimentar, descansar ou mesmo viajar), quer em terra (para se reproduzir). Estamos a perder algumas das nossas populações reprodutoras, como por exemplo a galheta ou a cagarra. No caso da galheta, a população das Berlengas tem mostrado um declínio continuado, o mesmo parece acontecer com a cagarra nos Açores.
Também algumas populações invernantes mostram um estado ambiental bastante degradado. Por exemplo, o papagaio-do-mar que tem vindo a sofrer recentemente eventos de mortalidade massiva nas nossas águas, provavelmente devido ao aquecimento do mar e aos eventos climatéricos extremos, relacionados com as alterações climáticas. O que não ajuda à sua situação já desfavorável nas principais áreas de nidificação.
W: Que projetos de conservação em curso destaca?
Nuno Oliveira: A SPEA Birdlife tem liderado e colaborado em diferentes projectos de conservação para reverter a degradação dos habitats marinhos e das espécies que deles dependem.
Destaco o Programa de Monitorização e Conservação das Berlengas, que teve na sua origem o projecto Life Berlengas em 2014. Desde então, a SPEA Birdlife com o apoio de parceiros chave tem promovido a melhoria deste habitat. No entanto, vivemos períodos difíceis em que precisamos de olhar para a conservação da natureza, e das aves marinhas em particular, como um dever e uma necessidade.
Nos Açores e na Madeira, destaco o Life Natura@Night, que tem como grande objectivo combater a poluição luminosa. Mas todos estes projectos e iniciativas precisam de ser abraçados pelas entidades governamentais e pela população.
W: Quais as áreas mais importantes para as aves marinhas? E todas têm algum estatuto de conservação?
Nuno Oliveira: Dificilmente conseguimos identificar uma área que seja importante para todas as aves marinhas. Apesar de tudo, estamos a falar de um grupo bastante heterogéneo, que usa o meio marinho de diversas formas.
Podemos destacar algumas áreas importantes para a nidificação, por exemplo as Selvagens (na Região Autónoma da Madeira), os ilhéus da Praia e Vila (nos Açores) ou o arquipélago das Berlengas (no continente). No mar, a área costeira continental é muito importante como corredor migratório para várias dezenas de espécies, ou como área de alimentação e descanso. As águas açoreanas são muito importantes quer para espécies reprodutoras (na região ou na Madeira), como para espécies migratórias e invernantes. Por exemplo, a freira-das-bermudas, espécie nidificante nas Caraíbas, alimenta-se regularmente nas águas açorianas ao longo de todo o ano. O mesmo observamos para a cagarra-do-mediterrâneo logo após deixar as colónias de reprodução.
W: O que podem os cidadãos fazer para ajudar estas aves e para participar mais activamente na sua conservação?
Nuno Oliveira: Em primeiro lugar podem colaborar nos vários projectos e programas de monitorização e conservação que a SPEA Birdlife dinamiza, como por exemplo, o Projecto Arenaria, as contagens RAM ou os vários projectos específicos, podem encontrar mais informação aqui. Podem ainda juntar-se à SPEA Birdlife como sócios ou seguidores (newsletters e redes sociais), ou participar nas várias campanhas que vamos dinamizando para questões em concreto, como por exemplo a recente campanha Hands Off Nature.