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Duas novas espécies de primatas descobertas na Amazónia

06.11.2026
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Bugio-vermelho-do-Mato Grosso (Alouatta matogrossensis). Foto: Bruno Rennó

Duas espécies de primatas arborícolas de grande porte foram agora descritas na floresta da Amazónia. Um dos investigadores, Luís Ceríaco, diz que esta é a “prova de que precisamos de continuar a inventariar a biodiversidade do planeta”.

O bugio-vermelho-do-Mato Grosso (Alouatta matogrossensis), endémico do centro do Brasil, e o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi), endémico do noroeste amazónico, são as duas espécies agora identificadas e descritas por uma equipa internacional.

Bugio-vermelho-do-Mato Grosso (Alouatta matogrossensis). Foto: Bruno Rennó

Os investigadores, coordenados por cientistas da Universidade de Salford e com a participação de investigadores do CIBIO-BIOPOLIS – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, publicaram esta semana o resultado do seu trabalho na revista Communications Biology.

Para isso, fizeram análises genómicas, além da comparação morfológica de espécimes de museus de história natural e de novos dados de campo. “

“Os macacos-búgios são primatas arborícolas de grande porte, célebres por suas vocalizações estrondosas, usadas para marcar território e manter o grupo unido”, descreve um comunicado do CIBIO-BIOPOLIS. “Os seus rugidos são os mais potentes entre os animais terrestres, ecoando por quilómetros nas florestas tropicais da América do Sul.”

Bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi). Foto: John Trent CC-BY-NC-ND

Segundo este Centro de investigação, “ao longo de milhões de anos, a dinâmica dos grandes rios amazónicos isolou populações de primatas em margens opostas, promovendo a evolução de linhagens independentes que permaneceram desapercebidas aos olhos dos cientistas”.

Para construir a história evolutiva mais detalhada deste grupo até à data, os cientistas sequenciaram os genomas de 11 espécies de bugios da América do Sul e Central e combinaram esses dados com medições morfológicas detalhadas de espécimes preservados em coleções científicas, como as do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (INPA). 

Como resultado foram identificadas duas novas espécies, as primeiras deste género desde 1940, ano em que foi descrito o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis).  

“O nosso estudo mostra que a Amazónia ainda guarda segredos biológicos notáveis, mesmo entre animais tão icónicos como os bugios”, comentou, em comunicado, Romina Batista, investigadora da Universidade de Salford e primeira autora do trabalho. “Compreender as diferentes espécies existentes e a sua distribuição real é o primeiro passo para desenhar planos de conservação eficazes face à rápida perda de habitat.”

Mas nem tudo são boas notícias.

Os investigadores alertam que o habitat do bugio-vermelho-do-Mato Grosso localiza-se no chamado “Arco do Desmatamento”, na região sul da Amazónia, sob severa fragmentação florestal decorrente da expansão agrícola.   

Desflorestação das áreas florestais do Mato Grosso. Foto: Luis Ceríaco

“A descrição de novas espécies de primatas em regiões da Amazónia onde achávamos que conhecíamos a diversidade de vertebrados indica que precisamos de priorizar cada vez mais este tipo de estudos para que, de facto, possamos proteger uma diversidade escondida e encurralada no arco do desmatamento”, acrescentou Thiago Semedo, aluno de doutoramento do programa doutoral BIODIV da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Para Luis Ceríaco, do CIBIO-BIOPOLIS, este trabalho “é a prova de que precisamos de continuar a inventariar a biodiversidade do planeta. Mesmo num grupo de macacos tão icónicos como os bugios, encontrámos duas espécies desconhecidas para a ciência – imaginem noutros grupos de animais e plantas”.

Na sua opinião, “são necessários mais taxonomistas (os cientistas que descrevem espécies novas para a ciência), mais trabalho de campo e mais reconhecimento das coleções de história natural como ferramenta indispensável para a investigação científica.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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