Uma equipa internacional liderada pela Estação Biológica de Doñana (EBD-CSIC) descobriu o primeiro exemplo de vocalização animal que combina instinto e aprendizagem.
O estudo, publicado na revista Nature Ecology and Evolution, apresenta o primeiro exemplo conhecido de uma vocalização animal que combina componentes inatos e aprendidos.
A equipa científica observou que 21 espécies diferentes de aves, em quatro continentes e separadas por cerca de 53 milhões de anos de evolução, produzem vocalizações quase idênticas — semelhantes a um lamento — quando detetam a presença de aves parasitas, como os cucos. Estas espécies põem os seus ovos nos ninhos de outras aves, forçando-as a criar os seus filhotes, muitas vezes em detrimento da sua própria descendência. Identificar e repelir estes parasitas representa, por isso, uma clara vantagem evolutiva.
Porque é que diferentes espécies de aves, em locais tão distantes como a Austrália, a China ou a Zâmbia, utilizam a mesma vocalização para identificar os seus parasitas, apesar de nunca terem tido contacto entre si?
Tal acontece, por exemplo entre a fadinha-soberba (Malurus cyaneus) e o cuco-bronzeado-de-horsfield (Chalcites basalis).
Para responder a esta questão foram realizados testes de reprodução sonora com o objetivo de avaliar a reação das aves a este tipo de chamadas, em comparação com outras vocalizações. Adicionalmente, foram conduzidas experiências para analisar como os indivíduos reagiam à presença de um cuco, em comparação com outras espécies predadoras e não predadoras.
Entre o instintivo e o aprendido
Os resultados mostraram que, ao ouvirem a chamada, as aves reagiam de forma instintiva, aproximando-se para investigar. Nesse momento, começavam a interpretar os sinais do ambiente e aprendiam a associar o som à presença de um parasita. “É o que se conhece como transmissão social”, explicou Damián Blasi, co-autor do estudo e cientista da linguagem na Universidade Pompeu Fabra (UPF), Barcelona.
Essa capacidade de observar e aprender com o ambiente não se limita a uma reação imediata, mas influencia o comportamento futuro das aves. “É nesse momento que as aves aprendem quando devem produzir esse som no futuro”, disse James Kennerley, co-autor principal e investigador pós-doutorado no Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell (Nova Iorque, EUA).
Os investigadores acreditam que além do mecanismo de aprendizagem, esta descoberta tem implicações evolutivas mais amplas e oferece novas perspectivas sobre a origem da linguagem aprendida.
“O fascinante nesta vocalização é que representa um ponto intermédio entre as vocalizações instintivas, comuns nos animais, e as unidades vocais completamente aprendidas, como as palavras humanas”, comentou William Feeney, ecólogo evolutivo da EBD-CSIC e autor principal do estudo.
A investigação revelou também que as espécies que produzem este tipo de vocalização tendem a viver em áreas com redes ecológicas complexas, onde são frequentes as interações entre parasitas de ninho e os seus hospedeiros.
“Com as aves a colaborarem para expulsar os parasitas, comunicar como e quando cooperar torna-se realmente importante — por isso, esta vocalização surge em regiões do mundo onde as espécies são mais afetadas pelo parasitismo de ninho”, explicou Kennerley. O resultado, acrescentou, “é que a evolução deste tipo de vocalização está a influenciar os padrões de comportamento cooperativo entre aves a nível global”.
A equipa científica defende que a ligação entre o som inato e a resposta aprendida pela ave é o que torna este estudo único. As suas conclusões colocam em causa a divisão rígida que tradicionalmente tem sido estabelecida entre a comunicação animal e a linguagem humana. Na verdade, sugerem que os sistemas de comunicação aprendidos, incluindo a linguagem humana, podem ter surgido através de uma integração progressiva de componentes instintivos e aprendidos.
“Pela primeira vez documentámos uma vocalização que tem componentes tanto aprendidas como inatas, o que pode demonstrar como os sinais aprendidos evoluíram a partir de vocalizações inatas, tal como sugerido por Charles Darwin”, explicou Feeney. “Estamos a observar como a evolução permite às espécies atribuir significados aprendidos a sons que já produzem naturalmente”, acrescentou.
Este trabalho foi financiado pela Fundação Alexander von Humboldt, Birds Queensland, British Trust for Ornithology, Hermon-Slade Foundation, uma bolsa de pós-doutoramento Edward W. Rose no Laboratório de Ornitologia de Cornell, e pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA.