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Conhecimento mundial sobre plantas não está a ser plenamente aproveitado, alertam

12.01.2026
leitura de 3 minutos
flores amarelas num fundo preto

Um grupo internacional de investigadores alerta para o facto de a conservação da biodiversidade e a investigação científica não estarem a beneficiar do vasto conhecimento sobre as plantas do mundo detido pelos jardins botânicos. Saiba porquê.

Num novo estudo publicado a 9 de janeiro na revista Nature Plants, investigadores de mais de 50 jardins botânicos e coleções vivas de plantas avisam que um mosaico de sistemas de dados incompatíveis, ou mesmo inexistentes, está a comprometer a ciência e a conservação globais num momento crítico.

Os autores defendem a criação de um sistema global de dados unificado para as coleções vivas, capaz de transformar a forma como os jardins botânicos do mundo gerem e partilham informação.

Este sistema, dizem, permitiria que trabalhassem em conjunto como uma “meta-coleção”, reforçando a investigação científica e os esforços de conservação.

As alterações climáticas, as espécies invasoras, a perda de habitat e o aumento da circulação global de material vegetal exigem um acesso rápido a informação de elevada qualidade e fiável sobre plantas vivas.

Mas conseguir este objetivo depende de uma cultura partilhada de dados abertos, rigorosos e acessíveis, permitindo que coleções vivas de todas as regiões do mundo participem em pé de igualdade.

“A infraestrutura digital necessária para gerir, partilhar e salvaguardar a diversidade vegetal viva não foi concebida para funcionar à escala global”, alertou, em comunicado, Samuel Brockington, curador do Jardim Botânico da Universidade de Cambridge e especialista que liderou este trabalho em conjunto com investigadores da Botanic Gardens Conservation International (BGCI).

“Construímos uma extraordinária rede global de coleções vivas de plantas, mas estamos a tentar fazer conservação do século XXI com sistemas de dados fragmentados, frágeis e, em muitos casos, inacessíveis para cientistas e conservacionistas que trabalham onde se encontra a maior parte da biodiversidade.”

Na sua opinião, o mundo precisa, urgentemente, de um “sistema de dados partilhado para que os responsáveis pelas coleções possam trabalhar de forma coordenada”.

Segundo Thaís Hidalgo de Almeida, curadora das Coleções Vivas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e coautora do relatório, “dispor de um ecossistema global de dados integrado e equitativo ajudaria enormemente a responder às necessidades urgentes de conservação em países ricos em biodiversidade como o Brasil, tornando o nosso trabalho mais rápido, mais colaborativo e mais eficaz”.

Em muitas áreas, a investigação científica depende de material vegetal vivo devidamente documentado e com informação rigorosa. À medida que as alterações climáticas aceleram o risco de extinção, as coleções vivas de plantas são cada vez mais utilizadas para apoiar o restauro de espécies e de ecossistemas, bem como a adaptação das plantações urbanas ao clima.

No entanto, muitas coleções continuam por digitalizar e, mesmo quando o estão, recorrem frequentemente a sistemas incompatíveis, moldados por prioridades institucionais ou comerciais, em vez de normas partilhadas.

Como resultado, informações vitais sobre espécies ameaçadas, resiliência climática, origem do material vegetal e estatuto legal não podem ser partilhadas de forma eficiente entre instituições ou além-fronteiras.

Pelo menos 105.634 espécies de plantas — cerca de um terço de todas as espécies vegetais do mundo — são cultivadas nos 3500 jardins botânicos que existem no mundo. Cerca de 40% da diversidade vegetal mundial enfrenta um risco elevado de extinção, e estas coleções vivas constituem uma rede de segurança fundamental.

Organizações como a Botanic Gardens Conservation International (BGCI) já lançaram as bases de um sistema de dados mais eficaz, mas os investigadores defendem que é necessário um investimento coordenado e ponderado para criar um recurso duradouro e fiável.

“Numa era de perda acelerada de biodiversidade, aproveitar todo o potencial de conservação das coleções vivas exige uma mudança profunda na forma como os dados das coleções são documentados, registados e interligados através de um ecossistema global de dados”, considerou Paul Smith, secretário-geral da BGCI e co-autor do estudo.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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