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Colónias de gatos estão a reduzir populações e tamanho dos lagartos endémicos de Tenerife, revela estudo

01.07.2026
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Lagarto-de-Tenerife. Foto: Beneharo Rodríguez

As colónias de gatos estão a provocar uma diminuição das populações e do tamanho corporal do lagarto-de-Tenerife (Gallotia galloti), uma espécie endémica da ilha canária, conclui um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Biology Letters.

A equipa de investigadores do Museu Nacional de Ciências Naturais de Espanha (MNCN-CSIC), da Universidade de La Laguna e do Grupo de Ornitologia e História Natural das Ilhas Canárias (GOHNIC) analisou mais de 200 lagartos em 22 colónias de gatos (Felis catus) distribuídas por Tenerife.

Os resultados mostram que, nas áreas junto às colónias de gatos, a abundância de lagartos é substancialmente inferior. Em média, as zonas de controlo apresentavam mais três lagartos capturados por amostragem, o equivalente a um aumento de cerca de 120% relativamente às zonas onde os gatos estavam presentes.

Além de serem menos numerosos, os lagartos encontrados nas proximidades das colónias de gatos eram também mais pequenos. Segundo os investigadores, esta diferença poderá resultar da preferência dos gatos por capturarem exemplares de maiores dimensões. Numa única colónia chegaram a ser identificados restos de até 14 lagartos entre as presas consumidas pelos felinos.

“O efeito das colónias não se limita à predação”, notou, em comunicado, Airam Rodríguez, investigador do MNCN e um dos autores do estudo. “Os nossos dados mostram que essas colónias também influenciam a estrutura das populações de lagartos e até o tamanho que os indivíduos conseguem atingir.”

Os investigadores foram surpreendidos com outro resultado deste estudo. Apesar de serem mais pequenos, os lagartos tinham uma condição corporal superior ao esperado. Isto sugeria o acesso facilitado a alimento.

Para perceber o que se estava a passar, a equipa recorreu à análise de isótopos estáveis de azoto e carbono, comparando a composição da comida fornecida aos gatos com a das fezes dos lagartos. Os resultados confirmaram que estes répteis consomem frequentemente o alimento disponibilizado nos comedouros destinados às colónias felinas.

Segundo Airam Rodríguez, a redução do tamanho dos lagartos poderá resultar da pressão exercida pela predação dos gatos, enquanto o aumento da massa corporal estará relacionado com a disponibilidade adicional de alimento proporcionada pelos comedouros.

Comedouros alteram o equilíbrio ecológico

O estudo destaca ainda que os pontos de alimentação criados para os gatos funcionam como focos artificiais que atraem muitas outras espécies, entre as quais ratos, ouriços-cacheiros, galinhas, rolas e pombos.

Esta concentração de alimento favorece sobretudo espécies introduzidas, alterando as relações ecológicas naturais e potenciando novos impactos sobre a fauna autóctone.

As Ilhas Canárias são um dos principais hotspots de biodiversidade da Europa, acolhendo numerosas espécies endémicas que não existem em qualquer outra região do mundo. Como acontece noutros arquipélagos, a introdução de predadores como o gato doméstico representa uma das principais ameaças para essa biodiversidade, especialmente para répteis e aves marinhas.

“Está bem documentado que o gato doméstico é uma das espécies invasoras que maior pressão exerce sobre as espécies autóctones, sobretudo nos ecossistemas insulares”, disse Juan Carlos Rando, professor da Universidade de La Laguna e co-autor do trabalho.

Os autores defendem que os resultados devem ser considerados na definição de políticas públicas para a gestão das colónias de gatos. Embora reconheçam a importância das preocupações relacionadas com o bem-estar animal, consideram que é necessário integrar também a conservação da fauna nativa nas decisões de gestão.

“Os nossos dados demonstram que é indispensável considerar os efeitos ecológicos das populações de gatos para além da dimensão do bem-estar animal”, concluiu Beneharo Rodríguez, investigador do GOHNIC e co-autor do estudo.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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