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Aves começam a preparar as crias para o calor ainda antes de nascerem

03.07.2026
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Mandarim (Taeniopygia guttata). Foto: Patrick_K59/WikiCommons

Estudo revela que um canto específico dos progenitores altera a expressão genética no cérebro dos embriões, preparando-os para enfrentar temperaturas elevadas.

Um estudo internacional, com participação da Estação Biológica de Doñana, do Conselho Superior espanhol de Investigações Científicas de Espanha (CSIC), demonstrou que os embriões do mandarim (Taeniopygia guttata) respondem a um canto específico emitido pelos progenitores durante períodos de calor, desencadeando alterações na expressão de genes associados à protecção do cérebro.

Os resultados, publicados num artigo a 11 de junho na revista científica Journal of Experimental Biology, mostram que os embriões conseguem detectar este sinal acústico ainda no interior do ovo e activar mecanismos biológicos que poderão aumentar a sua resistência a temperaturas extremas.

“É fascinante que o som, por si só, percebido a partir do interior do ovo, consiga alterar o funcionamento do cérebro”, comentou, em comunicado, Mylene Mariette, investigadora da Estação Biológica de Doñana e responsável por uma década de investigação sobre este comportamento.

Para testar esta hipótese, os investigadores recolheram ovos pouco depois da postura e incubaram-nos em condições controladas. Durante o desenvolvimento embrionário, um grupo foi exposto, através de altifalantes, ao chamado “canto do calor”, enquanto outro ouviu apenas vocalizações parentais habituais. No dia anterior à eclosão, os cientistas analisaram o cérebro dos embriões para identificar quais dos milhares de genes presentes tinham sido activados ou desactivados.

Os investigadores esperavam encontrar alterações sobretudo no hipotálamo, uma região cerebral responsável pela regulação hormonal e pela percepção da temperatura corporal. A expectativa era detectar mudanças em genes ligados ao stress, ao crescimento, ao metabolismo ou ao controlo da temperatura.

No entanto, os resultados revelaram um mecanismo diferente.

Segundo Julia Georges, investigadora da Universidade norte-americana de Clemson que liderou o estudo, as alterações nesses genes foram bastante reduzidas. Em vez disso, a resposta mais evidente surgiu em genes relacionados com a contracção muscular e com a dinâmica do citoesqueleto, expressos principalmente nas células musculares que revestem os vasos sanguíneos do cérebro e nas que regulam a entrada de líquido cerebral.

Os dados sugerem que a exposição ao “canto do calor” torna a barreira hematoencefálica — a estrutura que controla a passagem de substâncias entre o sangue e o cérebro — mais flexível, uma característica normalmente observada em situações de calor intenso. A diferença é que, neste caso, os embriões nunca estiveram expostos a temperaturas elevadas: bastou ouvirem o sinal acústico emitido pelos progenitores.

“É notável que tanto o calor como o ‘canto do calor’ produzam efeitos sobre a mesma característica e na mesma direcção”, disse Mylene Mariette.

Este trabalho dá continuidade a cerca de dez anos de investigação conduzida por Mylene Mariette, durante os quais foi demonstrado que este canto específico prepara as futuras crias para enfrentar ambientes mais quentes, influenciando o seu comportamento e fisiologia. É, contudo, a primeira vez que os cientistas conseguem demonstrar directamente os efeitos desta comunicação sonora ao nível da expressão genética no cérebro dos embriões.

A equipa pretende agora aprofundar a investigação para perceber até que ponto estas alterações tornam as aves mais resistentes às ondas de calor e aos golpes de calor, uma questão cada vez mais relevante num contexto de alterações climáticas.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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