A organização tinha avisado no início de junho para o risco de destruição da colónia devido à presença de gado numa área onde o acesso está interdito. Poucos dias depois, dezenas de aves abandonaram os ninhos e a SPEA lamenta que se perdeu uma época de reprodução.
Várias espécies de aves aquáticas ameaçadas abandonaram uma importante colónia de nidificação na Albufeira do Caia, em Santa Eulália, no concelho de Elvas, poucos dias depois de a SPEA-BirdLife ter alertado as autoridades para o risco iminente de destruição daquele local de reprodução.

A situação foi comunicada a 1 de junho ao Departamento Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo, ao Núcleo de Proteção Ambiental da GNR e à Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Num ofício enviado às três entidades, a organização alertava para a presença de gado a pastar livremente nas margens da albufeira e para a possibilidade de os animais acederem a uma pequena ilha onde várias espécies de aves nidificavam diretamente no solo.
Segundo observações realizadas no final da semana passada, as colónias de perdiz-do-mar (Glareola pratincola), chilreta (Sternula albifrons) e pernilongo (Himantopus himantopus) foram entretanto abandonadas.
Embora não tenham sido encontrados indícios diretos de pisoteio dos ninhos por vacas, a SPEA-BirdLife considera que a perturbação causada pela presença do gado nas imediações é a explicação mais provável para o abandono.
Na pequena ilha situada na Área Importante para as Aves e Biodiversidade da Albufeira do Caia estavam registados, nesta primavera, entre 40 e 50 casais de perdiz-do-mar, espécie classificada como Vulnerável em Portugal, pelo menos cinco casais de chilreta, também Vulnerável, três a cinco casais de pernilongo e entre um e três casais de borrelho-pequeno-de-coleira (Charadrius dubius).

“Estamos perante uma situação inaceitável”, afirmou, em comunicado Julieta Costa, coordenadora de Conservação Terrestre da SPEA-BirdLife. “A SPEA alertou formalmente para o risco, identificou a localização da colónia e pediu uma intervenção urgente para impedir o acesso do gado. Poucos dias depois, a colónia foi abandonada.”
Para Julieta Costa, o episódio “não pode ser tratado como um incidente menor: estamos a falar da perda de uma época de reprodução de aves ameaçadas, numa área reconhecida pela sua importância para a conservação”.
Organização lembra que acesso do gado é proibido
A SPEA-Birdlife recordou que a legislação em vigor proíbe o acesso do gado ao leito da albufeira. No alerta enviado às entidades competentes, a SPEA tinha sublinhado que o gado presente junto às margens tinha acesso desimpedido à área inundável, situação que considerava suficiente para justificar uma intervenção imediata.
Para a organização, é particularmente grave que o abandono da colónia tenha ocorrido depois de um alerta formal e documentado.
Segundo a SPEA-BirdLife, “estas ocorrências são habituais nesta albufeira e constituem a principal causa de insucesso reprodutor destas espécies”.
Em junho de 2023, um episódio semelhante foi comunicado ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), acabando também por resultar na destruição da colónia.

Por isso, a organização defende “medidas estruturais para impedir que episódios deste tipo se repitam”.
A associação ambiental diz ter tido conhecimento de outro episódio ocorrido este mês na albufeira de Alqueva, nas proximidades da aldeia da Luz, onde a presença de gado também é interdita. Segundo a organização, a situação terá provocado o abandono de uma colónia com mais de uma centena de casais de tagaz ou gaivina-de-bico-preto (Gelochelidon nilotica).
“Não basta lamentar depois de a perda estar consumada”, disse Julieta Costa. “As colónias de aves que nidificam no solo são extremamente vulneráveis à perturbação e ao pisoteio. Quando há alertas concretos, coordenadas, espécies identificadas e enquadramento legal claro, a resposta tem de ser rápida. A inação também tem consequências.”
A SPEA-BirdLife exige agora o apuramento do que aconteceu, a identificação de eventuais responsabilidades e a adoção de medidas urgentes que impeçam o acesso do gado às áreas sensíveis da Albufeira do Caia durante a época de nidificação.
Para a organização, este caso deve servir de alerta. “Não é aceitável que áreas importantes para aves ameaçadas continuem vulneráveis a pressões evitáveis e a situações claramente ilegais, sobretudo quando as autoridades são avisadas a tempo.”