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Ancient Trees: Hidde lançou uma app sobre árvores fascinantes de Lisboa, Porto e outras 272 cidades

23.10.2026
leitura de 6 minutos
Foto: Hidde Burgmans

Este designer de apps holandês decidiu abraçar uma paixão recente, dedicando-se a árvores que vale a pena conhecermos em diferentes localidades do mundo. A Wilder falou com Hidde Burgmans sobre o projeto e diz-lhe como pode utilizar esta nova app para aproveitar melhor a natureza urbana.

Curiosamente, foi nos jardins de Lisboa que Hidde Burgmans, um designer de apps holandês de 37 anos, começou a olhar para as árvores com admiração e curiosidade.

“Houve uma altura em que vinha muitas vezes a Lisboa por motivos profissionais, mas tinha também tempo livre nessas viagens, e costumava ir passear e explorar a cidade”, conta-nos Hidde durante uma conversa com a Wilder, realizada em videoconferência a partir da sua casa no município de Baarn, um local “muito verde” e onde cresceu “rodeado de natureza”.

Quando tem tempo nas deslocações em trabalho, Hidde sempre gostou de passear nos parques de Lisboa e de se sentar nas esplanadas dos quiosques a beber um expresso, mas aos poucos foi reparando nas árvores em redor, “como os jacarandás e umas figueiras mesmo enormes” que viu nalguns jardins, recorda. “Nós não temos essas árvores e então fiquei bastante impressionado. A certa altura, comecei a ir a todos estes parques e a pensar que alguém, há muito tempo, fez um esforço para plantar todas aquelas árvores, e que agora aqui estamos nós para as aproveitarmos.”

Um dos jardins preferidos em Lisboa. Foto: Hidde Burgmans

Foi assim que foi crescendo um novo passatempo: Hidde começou a listar as árvores que valia a pena visitar, nas cidades para onde viajava. À medida que ia encontrando árvores que o impressionavam – “como em Palermo, na Sicília, onde uma vez estacionei em frente a uma figueira-da-austrália mesmo enorme”, exemplifica – decidiu avançar com a construção de um site e de uma app dedicados a este tema.

Hidde junto uma figueira-da-austrália que o impressionou, em Palermo, na Sicília, que foi uma das árvores que o inspiraram a criar esta nova app. Foto: D.R.

Recorrendo à inteligência artificial, que o tem auxiliado com a escrita do código e a elaboração dos textos – tudo corrigido e atualizado por ele e por outras pessoas que o ajudam – conseguiu construir o site Ancient Trees e depois a app, que lançou em agosto e que está a melhorar, aos poucos.

Ironicamente, esta nova ferramenta digital apaixona-o porque é uma maneira de levar as pessoas para o ar livre e para a natureza. “Sempre trabalhei em produtos digitais, mas acabamos por ficar um bocado fartos, e desenvolvi uma espécie de relação amor-ódio com o tempo que muitos de nós passamos, hoje em dia, em frente a ecrãs. Gosto do facto de esta app, apesar de ser uma app, incentivar as pessoas a irem lá para fora e a olharem para árvores”, sublinha.

Atualmente, se formos ao site Ancient Trees (“Árvores Antigas”, traduzido para português), podemos encontrar informação sobre árvores de 274 cidades e outros locais, em especial na Europa mas também noutras regiões, como a América, Ásia e Austrália. Sempre em inglês.

Se nos registarmos, podemos também ter uma página nossa, onde ficam guardadas as fotografias que tiramos e as árvores que gostaríamos um dia de visitar.

Aspeto do mapa do site Ancient Trees. Cada ponto verde assinala uma localização para a qual o site e a app já contêm informação

Pesquisando por Portugal ficamos a saber, entre outras coisas, que o país tem um registo oficial de arvoredo de interesse público desde 1938 (gerido pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) e que a árvore mais antiga é uma oliveira em Santa Iria da Azóia, com cerca de 2850 anos. O texto destaca “os jacarandás do Brasil, os dragoeiros da Madeira, as figueiras-da-austrália – também conhecidas como árvores-da-borracha-australianas – cujas raízes aéreas transformam um jardim de Lisboa em algo que parece emprestado de outro continente”.

Para já, relativamente a Portugal, encontramos o registo de 129 árvores em 15 sítios diferentes, muitas delas em Lisboa (36 árvores) e no Porto (27), mas incluindo também o Buçaco (18), ilha da Madeira (10), Setúbal (10) e Guimarães (oito), entre outros locais.

Para cada uma das árvores assinaladas, é possível ver num mapa onde está localizada, como lá chegar e ficar a saber qual o nome por que é conhecida e a espécie a que pertence. Muitos registos incluem também fotografias, o que distingue esta árvore escolhida de todas as outras, qual a sua história e idade.

Uma parte do mapa de Lisboa, no site Ancient Trees. Cada árvore é assinalada no mapa por um ícone, que difere de acordo com a espécie
Para Lisboa, há muitas árvores que já contêm informação detalhada, como é o caso das oliveiras de Santo Amaro

Mas como se escolhe uma árvore para figurar aqui?

“Não tenho uma definição a preto e branco”, detalha Hidde, quando questionado sobre os critérios que o levam a elegar uma determinada árvore para fazer parte da Ancient Trees. “É uma árvore que vale a pena fazermos um desvio para a vermos, ou estamos a passear numa cidade e vale a pena irmos olhar para ela, essa é a minha definição geral”, afirma.

Uma das muitas árvores que Hidde fez questão de registar para a Ancient Trees, numa recente viagem em família ao Japão. Foto: Hidde Burgmans

Como fonte de informação para muitas das cidades, mesmo aquelas que já conhece relativamente bem como Lisboa, este designer recorre à informação de registos oficiais ou de blogues dedicados ao tema. Todas essas fontes, por sua vez, estão cuidadosamente identificadas junto ao respetivo texto.

Portugal, por exemplo, tem um registo de árvores de interesse público desde há quase 100 anos, o que lhe facilitou bastante o trabalho, reconhece. Da mesma forma, noutros países europeus “é muito fácil obter árvores porque há registos muito bons e de acesso livre”, mas não é isso que acontece em muitos outros pontos do mundo. “Nos Estados Unidos, por exemplo, é bastante difícil encontrar essas coisas”, exemplifica.

Hidde quer também acrescentar imagens e mais dados onde essa informação continua a faltar, mesmo que as árvores propriamente ditas estejam já assinaladas.

Hidde junto a uma pohutukawa ou árvore-de-fogo (Metrosideros excelsa) no Jardim da Parada em Campo de Ourique, Lisboa. As duas árvores desta espécie neste espaço verde foram classificadas em 2018, ficamos a saber no site/app Ancient Trees. Foto: D.R.

Embaixadores procuram-se. E outras formas de colaborar

Para preencher essas lacunas, o criador da Ancient Trees tem recorrido a uma outra fonte de informação que considera valiosa: os embaixadores. Lisboa, tal como o Porto e outras cinco cidades noutros países, têm já um embaixador cada uma, que ajudam Hidde de várias formas: identificam as árvores que vale a pena visitar e ainda não constam do projeto, checam os factos, tiram fotografias às árvores que ainda não as têm, ou podem também ajudam a desenhar passeios.

No entanto, muitas outras cidades precisam ainda de um embaixador que cumpra essas funções. Em Portugal, isso sucede em Braga, Coimbra, Guimarães, Setúbal, Sintra e no Buçaco, ou ainda na ilha da Madeira, por exemplo. Para alguém se oferecer, basta ir ao site ou à app e procurar se há um pedido de embaixador, no local onde gostaria de colaborar com este projeto. Depois, é uma questão de clicar no link, assinalar o seu interesse e aguardar por resposta.

Em busca de um embaixador para as árvores de Sintra (e de muitas outras cidades e locais)

Mas mesmo que não tenha tempo para ser embaixador, as pessoas interessadas podem colaborar com este projeto enviando sugestões de outras árvores que deveriam ser assinaladas, fotografias para aquelas que estão em falta ou corrigindo erros de localização, por exemplo. “Essas são das coisas que me ajudariam mais”, sublinha Hidde.

Os próximos passos

Entretanto, o que considerava um passatempo tem-lhe tomado na verdade muito do tempo livre. “Tento trabalhar sempre um pouco todos os dias, mas isso depende de quão ocupado estou no meu trabalho como designer de apps. Em média, dedico cerca de duas horas diárias a este projeto, mas tem havido fins-de-semana em que fico muito mais tempo a trabalhar nisto”, descreve.

Na verdade, tem o desejo de conseguir com que a Ancient Trees se torne o seu trabalho a tempo inteiro, mas para isso terá de começar a fazer dinheiro.

Ideias não lhe faltam. Por exemplo, com o apoio dos embaixadores, começar a desenhar pequenos percursos de visita a árvores assinaladas, que possam ser percorridos por quem tiver um plano pago – sendo que os conteúdos que estão atualmente disponíveis, como por exemplo os mapas e a possibilidade de sugerir novas áevores, continuarão disponíveis de forma gratuita, ressalva.

Entretanto, nestes próximos tempos, Hidde quer continuar a trabalhar para aumentar a qualidade dos conteúdos no site e na app. “Quero conseguir uma lista de árvores decente para a maioria das cidades e também melhorar as árvores que temos, com mais e melhores fotografias – porque muitas não têm – e isso passa também por trazer mais pessoas ao site, que se entusiasmem e enviem imagens. Esse é o meu primeiro foco.”


Agora é a sua vez.

Visite o site Ancient Trees, registe-se ou instale a app, e fique a conhecer algumas das árvores notáveis de Lisboa, Porto e de muitas outras cidades. Se quiser colaborar com o projeto, encontra várias formas de entrar em contacto. Aqui, por exemplo, pode sugerir uma árvore.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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