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Alterações climáticas podem “empurrar” lampreia, sável e enguia para norte no oceano Atlântico

15.10.2026
leitura de 2 minutos
Foto: Pexels/Pixabay

Peixes como a lampreia-marinha, o sável e a enguia-europeia poderão perder terreno nas zonas do oceano Atlântico mais a sul, dirigindo-se mais para norte para escapar às alterações climáticas, revela uma equipa de investigadores.

Durante três anos, investigadores de Portugal, Espanha, França e Irlanda juntaram-se no projeto europeu DiadSea – “Cooperação transnacional para melhorar a gestão e a conservação dos peixes diádromos no mar”, coordenado pela Universidade de Évora/MARE. O objetivo foi perceber o que acontece no oceano Atlântico a 10 espécies de peixes que passam parte da vida nos rios e parte no mar. Entre elas estão o salmão, a lampreia-marinha, o sável e a enguia-europeia.

Isto porque, é no mar que menos se sabe sobre estas espécies e também porque é aí que as medidas de conservação continuam a ser insuficientes.

O projeto reuniu e harmonizou 42 conjuntos de dados, com mais de 468 mil operações de amostragem, sobre 10 espécies. “O trabalho permitiu construir, pela primeira vez, uma visão espacial abrangente da presença destes peixes no Atlântico”, segundo um comunicado do MARE enviado esta semana à Wilder.

Para estudar a fase marinha de espécies como a lampreia-marinha, o sável, a enguia-europeia, o salmão e a truta-marisca, o projeto DiadSea recorreu a um conjunto diversificado de técnicas avançadas. Entre elas destaca-se o uso de ADN ambiental, que permite detetar as espécies a partir dos seus vestígios genéticos presentes na água sem a necessidade de as capturar, além da análise genética, da microquímica de otólitos e do recurso à marcação eletrónica.

Com base nestes dados, a equipa de investigadores desenvolveu modelos para as 10 espécies até ao final do século.

Estes modelos prevêem que as espécies se expandam para norte e percam terreno nas áreas mais a sul. A reorganização das comunidades é mais acentuada no cenário climático mais severo: perdas a sul, ganho e substituição de espécies a norte e em mar aberto.

Segundo os investigadores, “estes resultados permitem antecipar que zonas poderão tornar-se mais vulneráveis ou ganhar importância para a conservação e apoiar uma gestão mais preventiva e adaptativa”.

Os modelos mostram ainda que os habitats marinhos mais adequados a estas espécies dependem da distância aos rios que sustentam as populações. “Isto reforça a necessidade de gerir em conjunto o mar e os rios, em vez de os tratar de forma separada.”

“Estas espécies não conhecem fronteiras, nem entre países nem entre o rio e o mar”, comentou, em comunicado, Catarina Mateus, investigadora do MARE-Universidade de Évora e coordenadora do DiadSea. “Para os proteger, não basta saber mais sobre a sua vida no mar: é preciso que países, instituições, gestores, investigadores e pescadores trabalhem em conjunto.”

Uma das acções do projeto foi o teste ao selo de origem “Peixe do Mondego” na lota da Figueira da Foz. O selo distingue o sável e a savelha da pesca fluvial no Mondego do pescado capturado no mar ou noutras zonas. “Ao tornar a origem reconhecível ao longo da cadeia de comercialização, a iniciativa valoriza um produto local e promove uma pesca mais sustentável. Os operadores da lota continuaram a aplicar as etiquetas mesmo sem a equipa do projeto presente, o que mostra que o sistema pode passar a fazer parte das práticas habituais de venda.”

Os resultados finais deste projeto são apresentados hoje, 15 de outubro, numa sessão pública na Universidade de Évora.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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