Macho desta espécie ameaçada tinha sido encontrada na zona de Benavente, Santo Estevão. Projeto LIFE LxAquila apela à identificação e correção urgentes de apoios elétricos perigosos.
Um macho subadulto de águia-de-bonelli (Aquila fasciata) foi devolvido à natureza esta terça-feira na zona da Lezíria Norte, concelho de Vila Franca de Xira, depois de vários meses a recuperar de uma eletrocussão.
O anúncio foi feito pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Birdlife), que refere que a ave foi encontrada pelo Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) na área de Santo Estevão, concelho de Benavente, e transportada para o LxCRAS – Centro de Recuperação de Animais Silvestres, gerido pela Câmara Municipal de Lisboa.

A águia-de-bonelli, também conhecida como águia-perdigueira, é um predador de topo residente ao longo de todo o ano em Portugal, onde está classificada com o estatuto Vulnerável. Tem populações relevantes no Interior e no Sul, onde depende de uma grande diversidade de biótopos mediterrânicos, com áreas tranquilas adequadas à nidificação e áreas abertas com disponibilidade de alimento. Já a população da Área Metropolitana de Lisboa (AML) nidifica muito perto das povoações.
“Muitas não têm sorte”
A operação de resgate desta águia foi articulada pelo LIFE LxAquila (2021-2027), que tem como objetivo a conservação da águia-de-bonelli na AML, onde monitoriza 16 casais da espécie. Os responsáveis deste projeto sublinham a necessidade urgente de se corrigirem mais apoios elétricos perigosos, “uma das principais causas de morte desta espécie ameaçada”.
“A devolução desta águia à natureza é uma boa notícia, mas muitas outras não têm a mesma sorte. Enquanto existirem apoios elétricos perigosos no território, continuaremos a perder aves ameaçadas para uma causa que é conhecida e evitável”, avisa Rita Ferreira, técnica sénior de conservação da SPEA Birdlife e coordenadora do LIFE LXAquila.
A águia agora libertada tem sido seguida pela equipa do projeto desde que nasceu no Campo de Tiro de Alcochete, em 2023, quando lhe foi colocado um transmissor GPS. Foi em agosto de 2025 que surgiram sinais de que algo preocupante se passaria, quando o emissor mostrou que a ave estaria imóvel, num mesmo local, há mais de 24 horas. “Quando foi encontrada no terreno, estava pousada num sobreiro, debaixo de uma linha elétrica de média tensão, com uma asa descaída”, recorda um comunicado sobre esta ação. A águia foi então recolhida por vigilantes da natureza da Reserva Natural do Estuário do Tejo e do Parque Natural da Arrábida e levada para o LxCRAS, onde a avaliaram e se confirmou que as lesões teriam sido provocadas por eletrocussão.

Depois de vários meses a recuperar, o jovem macho foi agora devolvido à natureza numa área de dispersão de juvenis na bacia do Tejo, “escolhida pela abundância de presas e pelas condições favoráveis à sobrevivência da espécie.”
Manuela Nunes, bióloga do ICNF, avisa que “a mortalidade causada pelas inúmeras infraestruturas nas áreas de nidificação e dispersão de águia-de-bonelli continua a ser uma questão preocupante para a sobrevivência da espécie nesta região”. E lembra que na semana anterior ao incidente, o macho que ficou ferido estava a iniciar um novo casal com uma fêmea que tinha perdido o companheiro. Nessa mesma área, já tinham também morrido um adulto e um juvenil desta espécie. “É importante garantir a compatibilização da construção destas infraestruturas nas áreas vitais das grandes rapinas, procurando alternativas viáveis e implementando medidas de minimização eficazes”, sublinha.
Já Maria Luisa Aldim, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, diz que o município “continuará a defender medidas eficazes, nomeadamente a correção de infraestruturas perigosas, para assegurar que espécies ameaçadas possam prosperar num território mais seguro”.

Mais de metade das mortes por eletrocussão
De acordo com a SPEA BirdLife, mais de metade das mortes conhecidas de águia-de-bonelli na Península Ibérica devem-se a eletrocussão, sendo que “níveis relativamente baixos de mortalidade podem comprometer a viabilidade das populações”. Até hoje, no âmbito do projeto que está em curso, cerca de 100 apoios elétricos foram corrigidos pela E-Redes, responsável pelas linhas de eletricidade de média e baixa tensão. No entanto, “continuam a existir na região e por todo o país estruturas perigosas que representam um risco mortal para grandes aves de rapina”.
A identificação e correção de outros apoios elétricos perigosos é mais urgente, sobretudo, em territórios de reprodução e de dispersão de espécies ameaçadas, dentro e fora das áreas protegidas, salientam os responsáveis da ONGA portuguesa. “Em Portugal continua a faltar legislação específica que obrigue a corrigir apoios e linhas comprovadamente perigosas, ao contrário do que já acontece em Espanha. Precisamos de um enquadramento legal que permita agir de forma sistemática para reduzir uma das principais causas de mortalidade de grandes aves de rapina”, reforça Rita Ferreira.
Além da SPEA BirdLife, que coordena, este projeto tem outros 13 parceiros, incluindo seis municípios (Alenquer, Loures, Mafra, Sintra, Torres Vedras e Vila Franca de Xira), a Companhia das Lezírias, a E-redes, a GNR, o ICNF, a Parques de Sintra – Monte da Lua, a Sociedad Española de Ornitologia (SEO/BirdLife) e a Tapada Nacional de Mafra.
Saiba mais.
Recorde aqui algumas características da águia-de-bonelli que até há pouco tempo eram desconhecidas, descobertas graças a filmagens da espécie realizadas na Tapada de Mafra, no âmbito do projeto LIFE LxAquila.