Em mais uma das suas expedições pela natureza de Portugal, a correspondente da Wilder Fernanda Gamito explora um dos rios mais selvagens do país, o Côa, na zona de Pinhel, distrito da Guarda.
A caminho de Cidadelhe, nuns ermos a Norte de Pinhel, um desvio para o Miradouro da Faia chama a atenção. Ficará para mais tarde.
A viagem segue por planaltos ondulantes a perder de vista. Tudo por aqui parece remoto e solitário, apesar da paisagem humanizada, num mosaico de olival tradicional, amendoal e vinha.
Cidadelhe é o “calcanhar do mundo”, nas palavras de Saramago e dos seus habitantes, aldeia de casas graníticas e barrocos que lembra Monsanto, mas sem castelo, nem rótulos turísticos ou nacionalistas.

O Côa, um dos rios portugueses mais selvagens, corre por perto, de Sul para Norte, como nós, e ouve-se lá em baixo, mas sem se deixar ver, escondido num vale encaixado.
Em alguns pontos com melhor vista, em abrigos nas escarpas verticais da margem esquerda, há painéis de arte rupestre com figuras gravadas no granito e pinturas raras com motivos zoomórficos naturalistas que remontam, algumas delas, ao período paleolítico. Fazem parte do Núcleo de Arte Rupestre da Faia, sítio arqueológico localizado na freguesia de Cidadelhe que integra a área do Parque Arqueológico do Vale do Côa (o maior conjunto de arte rupestre ao ar livre do mundo, Património Mundial da UNESCO desde 1998).
Daqui de cima, vê-se quase tudo… devem ter pensado as gentes de há 20 000 anos e as que vieram depois.

Voltamos à estrada, em busca do tal miradouro moderno indicado lá atrás. Desde a pequena e esquecida aldeia da Faia, já sem habitantes permanentes, até se encontrar a estrutura metálica suspensa sobre o vale, são apenas 500 metros a descer.
Um silêncio de cigarras e a calmaria das três da tarde acompanham o percurso entre antigos muros de pedra solta, sobreiros, giestal e rosmaninho ressequido.
Sob o Sol forte de Julho, o ar cheira a perfume de matos; poderá bem ser do tomilho-bela-luz e da perpétuas-das-areias. Gente humana à vista só um ornitólogo, equipado a rigor. Apetece perguntar o que faz aqui com este tempo e que aves espera observar a esta hora, mas está demasiado calor até para conversas.

A resposta, contudo, chega sem palavras, logo a seguir aos primeiros degraus metálicos: pendurado a uma altura de 210 metros acima do rio, o miradouro oferece um panorama natural deslumbrante.
Sobre o vale estreito, formando um canhão escarpado de rocha nua, voam, imperturbáveis, mesmo a uma hora destas, dezenas de aves rupículas.
Identificamos a andorinha-das-rochas, em rápidas acrobacias, e acompanhamos os grifos, planando em círculos, lá no alto. E o colorido melro-das-rochas (Monticola saxatilis) andará certamente por aí, de sentinela, na sua visita estival às encostas mais agrestes, onde veio para se reproduzir, antes de regressar aos trópicos.

Afinal, não foi preciso calcorrear quilómetros para se ter este vislumbre do Côa selvagem em todo o seu esplendor.
De pedra antiga ou de ferro forjado no presente, talvez os miradouros, esses “lugares elevados de onde se olha e admira a paisagem”, tenham sido uma invenção dos homens só para chegarem mais perto do céu.