Um designer de apps holandês decidiu abraçar uma paixão recente, divulgando as árvores que vale a pena conhecermos em diferentes cidades e outras localidades no mundo. A Wilder entrevistou Hidde Burgmans sobre o projeto e diz-lhe como pode utilizar esta app gratuita, disponível também numa página online, para aproveitar melhor a natureza urbana.
Curiosamente, foi nos jardins de Lisboa que Hidde Burgmans, um designer de ‘apps’ holandês de 37 anos, começou a olhar para as árvores com admiração e curiosidade.
“Houve uma altura em que vinha muitas vezes a Lisboa por motivos profissionais, mas tinha também tempo livre nessas viagens, e costumava ir passear e explorar a cidade”, conta-nos Hidde durante uma conversa com a Wilder, realizada em videoconferência a partir da sua casa no município holandês de Baarn, um local “muito verde” e onde cresceu “rodeado de natureza”.
Quando tinha tempo nas deslocações em trabalho, Hidde sempre gostou de passear nos parques de Lisboa e de se sentar nas esplanadas dos quiosques a beber um expresso, mas aos poucos foi reparando nas árvores em redor, “como os jacarandás e umas figueiras mesmo enormes” que viu nalguns jardins, recorda. “Nós não temos essas árvores e então fiquei bastante impressionado. A certa altura, comecei a ir a todos estes parques e a pensar que alguém, há muito tempo, fez um esforço para plantar todas aquelas árvores, e que agora aqui estamos nós para as aproveitarmos.”

Foi assim que foi crescendo um novo passatempo: Hidde começou a listar as árvores que valia a pena visitar, nas cidades para onde viajava. À medida que ia encontrando árvores que o impressionavam – “como em Palermo, na Sicília, onde uma vez estacionei em frente a uma figueira-da-austrália mesmo enorme”, exemplifica – decidiu avançar com a construção de uma página online e de uma ‘app’ (aplicação para o telemóvel) dedicados a este tema.

Recorrendo à inteligência artificial, que o tem auxiliado com a escrita do código propriamente dito e com a elaboração dos textos – tudo corrigido e atualizado por ele e por outras pessoas que o ajudam – tem vindo a construir a página online Ancient Trees (“Árvores Antigas”, traduzido para português) e mais recentemente a ‘app’ com o mesmo nome, que lançou em agosto e que está a melhorar, aos poucos.
Ironicamente, este novo projeto digital apaixona-o porque é uma maneira de levar as pessoas para o ar livre e para a natureza. “Sempre trabalhei em produtos digitais, mas acabamos por ficar um bocado fartos, e desenvolvi uma espécie de relação amor-ódio com o tempo que muitos de nós passamos, hoje em dia, em frente a ecrãs. Gosto do facto de esta ‘app’, apesar de ser uma ‘app’, incentivar as pessoas a irem lá para fora e a olharem para árvores”, sublinha.
Atualmente, podemos encontrar nesta nova página e na ‘app’ várias informações sobre árvores de muitas localidades na Europa mas também noutras regiões, como a América, Ásia e Austrália. Sempre em inglês.
Se nos registarmos, podemos também ter acesso a uma página nossa, onde é possível guardar as fotografias que tirarmos e as árvores que gostaríamos um dia de visitar.

Pesquisando por Portugal ficamos a saber, entre outras coisas, que o país tem um registo oficial de arvoredo de interesse público desde 1938 (gerido pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) e que a árvore mais antiga é uma oliveira em Santa Iria da Azóia, com cerca de 2850 anos. O texto destaca “os jacarandás do Brasil, os dragoeiros da Madeira, as figueiras-da-austrália – também conhecidas como árvores-da-borracha-australianas – cujas raízes aéreas transformam um jardim de Lisboa em algo que parece emprestado de outro continente”.
Para já, relativamente a Portugal, encontramos também o registo de 129 árvores em 15 sítios diferentes, muitas delas em Lisboa (36 árvores) e no Porto (27), mas incluindo também o Buçaco (18), ilha da Madeira (10), Setúbal (10) e Guimarães (oito), entre outros locais.
Para cada uma das árvores assinaladas, podemos perceber num mapa onde está localizada, como lá podemos chegar, e ficamos a saber qual o nome por que é conhecida e a espécie a que pertence. Muitos registos incluem também fotografias e informações adicionais: o que distingue esta árvore escolhida, o que se sabe sobre a sua história e idade.


Mas como se escolhe uma árvore para figurar aqui?
“Não tenho uma definição a preto e branco”, detalha Hidde, quando questionado sobre os critérios que o levam a elegar uma determinada árvore para fazer parte da Ancient Trees. “É uma árvore que vale a pena fazermos um desvio para a vermos, ou estamos a passear numa cidade e vale a pena irmos olhar para ela, essa é a minha definição geral”, diz.

Como fonte de informação para muitas das cidades, mesmo aquelas que já conhece relativamente bem, como Lisboa, este designer recorre à informação disponível em registos oficiais, em blogues dedicados ao tema ou em artigos na comunicação social. Todas essas fontes, por sua vez, estão cuidadosamente identificadas junto aos respetivos textos que aproveitaram esses dados.
Em Portugal, por exemplo, o registo de árvores de interesse público facilitou-lhe bastante o trabalho, reconhece. Da mesma forma, noutros países europeus “é muito fácil obter árvores porque há registos muito bons e de acesso livre”. Mas não é isso que acontece em muitos outros pontos do mundo, como por exemplo “nos Estados Unidos, onde é bastante difícil encontrar essas coisas”, lamenta.
Hidde quer também acrescentar imagens e mais dados onde essa informação continua a faltar, mesmo que as árvores propriamente ditas estejam já assinaladas.

Embaixadores procuram-se. E outras formas de colaborar
Para preencher essas lacunas, o criador do projeto tem recorrido a uma outra fonte de informação que aponta como valiosa: os embaixadores. Lisboa, Porto e outras cinco cidades noutros países têm já um embaixador cada uma, que cumprem várias funções: identificam as árvores que vale a pena serem assinaladas e ainda não constam do projeto, checam os factos já escritos, tiram fotografias às árvores que ainda não as têm. E podem também ajudar a desenhar passeios.
No entanto, muitas outras cidades precisam ainda de um embaixador. Em Portugal, isso sucede em várias localidades, incluindo Braga, Coimbra, Guimarães, Setúbal, Sintra e no Buçaco, ou ainda na ilha da Madeira, por exemplo. Para alguém se oferecer, basta ir à página online ou à ‘app’ e procurar se há um pedido de embaixador, no local onde gostaria de colaborar com o projeto. Depois, é simples: clica na ligação para demonstrar interesse e aguarda por resposta.

Mas mesmo que não tenham tempo para ser embaixador, as pessoas interessadas podem colaborar enviando sugestões de outras árvores que deveriam ser assinaladas, fotografias para aquelas que estão em falta ou corrigindo erros de localização, por exemplo. “Essas são das coisas que me ajudariam mais”, apela Hidde.
Os próximos passos
Entretanto, o que considerava um passatempo tem-lhe tomado na verdade muito do tempo livre. “Tento trabalhar sempre um pouco todos os dias, mas isso depende de quão ocupado estou no meu trabalho como designer de ‘apps’. Em média, dedico cerca de duas horas diárias a este projeto, mas tem havido fins-de-semana em que fico muito mais tempo a trabalhar nisto”, descreve.
Na verdade, cada vez mais tem o desejo de conseguir com que a Ancient Trees se torne o seu trabalho a tempo inteiro, mas para isso terá de começar a fazer dinheiro.
Ideias não lhe faltam. Por exemplo, com o apoio dos embaixadores, gostava um dia de desenhar percursos urbanos de visita a árvores assinaladas, que possam ser percorridos por quem tiver um plano pago na app, que atualmente é totalmente gratuita. Mas mesmo que um dia avance esta nova fase – assegura Hidde – os conteúdos que estão atualmente disponíveis, como os mapas e a possibilidade de sugerir novas áevores, continuarão disponíveis para todos.
Entretanto, nestes próximos tempos, Hidde quer dar prioridade ao aumento da qualidade dos conteúdos na página online e na ‘app’, dando também a conhecer este projeto. “Quero conseguir uma lista de árvores decente para a maioria das cidades e também melhorar as árvores que temos, com mais e melhores fotografias – porque muitas não as têm ainda – e isso passa também por trazer mais pessoas ao site, que se entusiasmem e enviem imagens. Esse é o meu primeiro foco.”
Agora é a sua vez.
Visite o site Ancient Trees, registe-se ou instale a app, e fique a conhecer algumas das árvores notáveis de Lisboa, Porto e de muitas outras cidades. Se quiser colaborar com o projeto, encontra várias formas de entrar em contacto. Aqui, por exemplo, pode sugerir uma árvore. Pode também enviar um email para [email protected].