Graças a uma câmara instalada dentro de uma caixa-ninho em Santander, na Cantábria (Norte de Espanha), a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/Birdlife) está a recolher novos dados e a aprofundar o conhecimento sobre a reprodução do mocho-pequeno-d’orelhas, espécie Vulnerável em Portugal.
Há mais de 15 anos que a SEO/BirdLife desenvolve um programa de monitorização e conservação desta pequena ave de rapina noturna naquela cidade espanhola.
Ao longo deste período, com a ajuda de dezenas de voluntários, foram construídas e instaladas mais de 100 caixas-ninho. “Os trabalhos têm permitido acompanhar tanto a população reprodutora como a população invernante, tendo sido introduzidos, nos últimos anos, dispositivos de geolocalização para monitorizar a migração de alguns adultos”, explica a organização em comunicado.
Com uma alimentação baseada sobretudo em insetos e traças, o mocho-pequeno-d’orelhas desempenha um papel importante como bioindicador da qualidade dos espaços verdes urbanos.
“A sua ampla distribuição pela cidade de Santander demonstra o sucesso das medidas de conservação e promoção da espécie, fazendo desta cidade a área urbana da Península Ibérica com o maior número de mochos-d’orelhas reprodutores.”
Uma janela aberta para a natureza
Uma câmara em direto, ligada ao canal de YouTube da SEO/BirdLife, permite-nos espreitar a vida secreta destas pequenas aves de rapina noturnas.
A caixa-ninho foi ocupada pela primeira vez em 2025 e permite acompanhar de perto uma das fases mais íntimas da vida de um casal de mochos-pequenos-d’orelhas, a reprodução. Embora a tentativa de reprodução do ano passado tenha sido interrompida pela morte da fêmea, vítima de atropelamento, este ano a época reprodutora terminou com o voo de três das quatro crias.
O mocho-pequeno-d’orelhas passa o inverno em África e regressa à Península Ibérica na primavera para se reproduzir.
Na verdade, “o assobio monossilábico do mocho-pequeno-d’orelhas, repetido de três em três segundos durante horas a fio, por vezes em dueto, é um dos sons mais característicos da primavera transmontana”, explica o portal Aves de Portugal.
Na caixa-ninho em Santander, o macho entrou pela primeira vez a 28 de março, poucas horas depois da manutenção anual da caixa-ninho, durante a qual o material antigo foi substituído por palha limpa.
Cerca de dez dias depois, a câmara registou o primeiro encontro do casal no ninho. A fêmea aproximou-se da entrada, respondendo ao chamamento do macho, que se encontrava no interior.
O cortejo acontece, habitualmente, fora da caixa-ninho. O macho oferece presas à fêmea, seguindo-se sucessivas cópulas. Cerca de mês e meio depois da primeira entrada na caixa, teve início a postura.
A fêmea pôs quatro ovos, com um intervalo de dois dias entre cada um, e começou a incubá-los após a postura do último. Foi responsável pela incubação sozinha, alimentando-se das presas que o macho lhe levava ao ninho. Entre elas um morcego-anão e um juvenil de rabirruivo-preto, além de centenas de gafanhotos, bichos-pau, traças e pequenos roedores.
As três primeiras crias nasceram cerca de três semanas depois do início da incubação. A quarta nasceu dois dias mais tarde, um atraso que viria a revelar-se decisivo na fase final.
A partir desse momento, foi possível observar ambos os progenitores a levar alimento para o ninho. No entanto, apenas a fêmea cortava as presas em pedaços e distribuía o alimento pelas crias, até estas conseguirem agarrar e engolir as presas sozinhas.
As quatro crias cresceram a um ritmo semelhante até esta fase, quando os progenitores deixaram de entrar no ninho e passaram a entregar as presas à entrada da caixa. A partir daí, a cria mais nova, também a mais pequena, começou a ter mais dificuldade em conseguir alimento, acabando por ganhar menos peso do que os irmãos.
Na terceira semana de vida, as três crias maiores conseguiram sair do ninho. A mais pequena ficou para trás, estava muito debilitada e pesava metade do que pesava a sua irmã ou o seu irmão de maior dimensão, não tendo sobrevivido.
A partir desse momento, os progenitores continuaram a alimentar as três crias nas imediações do ninho, que estas já não voltaram a visitar.
Anilhagem científica e acompanhamento da migração
O projeto de monitorização do mocho-pequeno-d’orelhas em Santander permite recolher informação que vai além das imagens captadas pela câmara.
Todas as crias identificadas no interior das caixas-ninho são marcadas com uma anilha metálica. As mães também são anilhadas quando se encontram dentro da caixa no momento da visita. Em alguns casos, é ainda colocado nas costas das fêmeas adultas um dispositivo de geolocalização.
Os machos são capturados durante a noite com recurso a redes de anilhagem. Quando têm peso e dimensões suficientes para transportar o equipamento, também lhes são colocados dispositivos de geolocalização.
“Este trabalho de monitorização permitiu obter dados muito interessantes sobre o casal que ocupa a caixa-ninho filmada e sobre os seus comportamentos migratórios”, considerou a SEO/Birdlife.
A fêmea, chamada Otilia, foi identificada pela primeira vez em reprodução em 2023, noutro parque de Santander. Foi, aliás, o primeiro exemplar da cidade a receber um dispositivo de geolocalização.
Em 2024, Otilia não foi detetada a reproduzir-se em nenhuma caixa-ninho e só voltou a ser localizada em 2025, quando foi possível recuperar o dispositivo de geolocalização.
Graças à colaboração com o projeto Migralight, financiado pela União Europeia, foi possível descodificar os dados recolhidos pelo dispositivo. Estes revelaram que Otilia passou os invernos de 2023 e 2024 na Guiné-Bissau. Em 2026, esta fêmea reproduziu-se pela primeira vez na caixa-ninho equipada com a câmara.
O macho, chamado Óleo, foi identificado pela primeira vez em reprodução em 2025, numa caixa-ninho instalada num parque próximo. Como não lhe foi colocado um dispositivo de geolocalização, não é possível saber onde passou o inverno. Em 2026, reproduziu-se pela primeira vez na caixa-ninho filmada, ocupando o lugar do macho que aí se tinha reproduzido em 2025.
As dezenas de horas de gravação recolhidas pela câmara permitirão continuar a investigar a alimentação das crias de mocho-pequeno-d’orelhas e esclarecer questões como o número de vezes que os progenitores levam alimento ao ninho durante a noite, quais as presas mais frequentes, a que horas o casal adulto está mais ativo e quanto tempo dedica a alimentar as crias ou a alimentar-se.