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Câmara numa caixa-ninho revela os segredos da reprodução do mocho-pequeno-d’orelhas

15.10.2026
leitura de 4 minutos
Óleo e Otilia, os mochos que ocuparam a caixa-ninho de Santander. Foto: SEO/BirdLife

Graças a uma câmara instalada dentro de uma caixa-ninho em Santander, na Cantábria (Norte de Espanha), a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/Birdlife) está a recolher novos dados e a aprofundar o conhecimento sobre a reprodução do mocho-pequeno-d’orelhas, espécie Vulnerável em Portugal.

Há mais de 15 anos que a SEO/BirdLife desenvolve um programa de monitorização e conservação desta pequena ave de rapina noturna naquela cidade espanhola.

Ao longo deste período, com a ajuda de dezenas de voluntários, foram construídas e instaladas mais de 100 caixas-ninho. “Os trabalhos têm permitido acompanhar tanto a população reprodutora como a população invernante, tendo sido introduzidos, nos últimos anos, dispositivos de geolocalização para monitorizar a migração de alguns adultos”, explica a organização em comunicado.

Com uma alimentação baseada sobretudo em insetos e traças, o mocho-pequeno-d’orelhas desempenha um papel importante como bioindicador da qualidade dos espaços verdes urbanos.

“A sua ampla distribuição pela cidade de Santander demonstra o sucesso das medidas de conservação e promoção da espécie, fazendo desta cidade a área urbana da Península Ibérica com o maior número de mochos-d’orelhas reprodutores.”

Uma janela aberta para a natureza

Uma câmara em direto, ligada ao canal de YouTube da SEO/BirdLife, permite-nos espreitar a vida secreta destas pequenas aves de rapina noturnas.

A caixa-ninho foi ocupada pela primeira vez em 2025 e permite acompanhar de perto uma das fases mais íntimas da vida de um casal de mochos-pequenos-d’orelhas, a reprodução. Embora a tentativa de reprodução do ano passado tenha sido interrompida pela morte da fêmea, vítima de atropelamento, este ano a época reprodutora terminou com o voo de três das quatro crias.

O mocho-pequeno-d’orelhas passa o inverno em África e regressa à Península Ibérica na primavera para se reproduzir.

Na verdade, “o assobio monossilábico do mocho-pequeno-d’orelhas, repetido de três em três segundos durante horas a fio, por vezes em dueto, é um dos sons mais característicos da primavera transmontana”, explica o portal Aves de Portugal.

Na caixa-ninho em Santander, o macho entrou pela primeira vez a 28 de março, poucas horas depois da manutenção anual da caixa-ninho, durante a qual o material antigo foi substituído por palha limpa.

Cerca de dez dias depois, a câmara registou o primeiro encontro do casal no ninho. A fêmea aproximou-se da entrada, respondendo ao chamamento do macho, que se encontrava no interior.

O cortejo acontece, habitualmente, fora da caixa-ninho. O macho oferece presas à fêmea, seguindo-se sucessivas cópulas. Cerca de mês e meio depois da primeira entrada na caixa, teve início a postura.

A fêmea pôs quatro ovos, com um intervalo de dois dias entre cada um, e começou a incubá-los após a postura do último. Foi responsável pela incubação sozinha, alimentando-se das presas que o macho lhe levava ao ninho. Entre elas um morcego-anão e um juvenil de rabirruivo-preto, além de centenas de gafanhotos, bichos-pau, traças e pequenos roedores.

As três primeiras crias nasceram cerca de três semanas depois do início da incubação. A quarta nasceu dois dias mais tarde, um atraso que viria a revelar-se decisivo na fase final.

A partir desse momento, foi possível observar ambos os progenitores a levar alimento para o ninho. No entanto, apenas a fêmea cortava as presas em pedaços e distribuía o alimento pelas crias, até estas conseguirem agarrar e engolir as presas sozinhas.

As quatro crias cresceram a um ritmo semelhante até esta fase, quando os progenitores deixaram de entrar no ninho e passaram a entregar as presas à entrada da caixa. A partir daí, a cria mais nova, também a mais pequena, começou a ter mais dificuldade em conseguir alimento, acabando por ganhar menos peso do que os irmãos.

Na terceira semana de vida, as três crias maiores conseguiram sair do ninho. A mais pequena ficou para trás, estava muito debilitada e pesava metade do que pesava a sua irmã ou o seu irmão de maior dimensão, não tendo sobrevivido.

A partir desse momento, os progenitores continuaram a alimentar as três crias nas imediações do ninho, que estas já não voltaram a visitar.

Anilhagem científica e acompanhamento da migração

O projeto de monitorização do mocho-pequeno-d’orelhas em Santander permite recolher informação que vai além das imagens captadas pela câmara.

Todas as crias identificadas no interior das caixas-ninho são marcadas com uma anilha metálica. As mães também são anilhadas quando se encontram dentro da caixa no momento da visita. Em alguns casos, é ainda colocado nas costas das fêmeas adultas um dispositivo de geolocalização.

Os machos são capturados durante a noite com recurso a redes de anilhagem. Quando têm peso e dimensões suficientes para transportar o equipamento, também lhes são colocados dispositivos de geolocalização.

“Este trabalho de monitorização permitiu obter dados muito interessantes sobre o casal que ocupa a caixa-ninho filmada e sobre os seus comportamentos migratórios”, considerou a SEO/Birdlife.

A fêmea, chamada Otilia, foi identificada pela primeira vez em reprodução em 2023, noutro parque de Santander. Foi, aliás, o primeiro exemplar da cidade a receber um dispositivo de geolocalização.

Em 2024, Otilia não foi detetada a reproduzir-se em nenhuma caixa-ninho e só voltou a ser localizada em 2025, quando foi possível recuperar o dispositivo de geolocalização.

Graças à colaboração com o projeto Migralight, financiado pela União Europeia, foi possível descodificar os dados recolhidos pelo dispositivo. Estes revelaram que Otilia passou os invernos de 2023 e 2024 na Guiné-Bissau. Em 2026, esta fêmea reproduziu-se pela primeira vez na caixa-ninho equipada com a câmara.

O macho, chamado Óleo, foi identificado pela primeira vez em reprodução em 2025, numa caixa-ninho instalada num parque próximo. Como não lhe foi colocado um dispositivo de geolocalização, não é possível saber onde passou o inverno. Em 2026, reproduziu-se pela primeira vez na caixa-ninho filmada, ocupando o lugar do macho que aí se tinha reproduzido em 2025.

As dezenas de horas de gravação recolhidas pela câmara permitirão continuar a investigar a alimentação das crias de mocho-pequeno-d’orelhas e esclarecer questões como o número de vezes que os progenitores levam alimento ao ninho durante a noite, quais as presas mais frequentes, a que horas o casal adulto está mais ativo e quanto tempo dedica a alimentar as crias ou a alimentar-se.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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