Um leitor da Wilder quer plantar árvores autóctones na Serra do Alvão, uma de cada vez, para ajudar a recuperar uma paisagem que viu ser destruída pelos incêndios. Mas pode fazê-lo por iniciativa própria? O GEOTA explica o que é preciso ter em conta antes de plantar.
Ricardo vive em Vila Real e diz ter assistido, ao longo dos anos, à transformação da Serra do Alvão pelos incêndios.
Por exemplo, em agosto de 2025, um incêndio queimou cerca de 6000 hectares da serra do Alvão, dos quais 1.669 na área do Parque Natural do Alvão. Perderam-se habitats naturais, bosques de folhosas, matos, pastos e terrenos agrícolas.
“Durante anos tenho visto a Serra do Alvão ser dizimada e destruída pelos incêndios”, conta à Wilder. E lamenta que, depois das intervenções de limpeza, muitas zonas fiquem ainda mais despidas. “No final das limpezas, que desertificam ainda mais os ecossistemas, o que sobra são pedras, rochas e calhaus… Não sobra mais nada.”
Mas a memória que guarda da serra é bem diferente.
“Lembro-me de passear pela Serra do Alvão e ver árvores, ribeiros e animais selvagens por onde quer que passasse. Agora: pedras… E dizem que sempre foi assim.”
Ricardo gostaria de contribuir para mudar esta realidade, mas não através de uma iniciativa organizada. “Quero mudar isto, uma árvore de cada vez”, escreve.
A ideia é ir sozinho para a montanha, escolher os locais com cuidado e plantar árvores locais do Alvão ou do Marão. “Não quero juntar-me como voluntariado a nenhuma organização ou grupo de pessoas pois geralmente fazem plantações apenas uns dias por ano. Gosto de estar na montanha sozinho em silêncio, em paz. E já que lá estou, porque não plantar árvores?”
Mas há uma questão fundamental antes de pegar na primeira árvore: pode um cidadão plantar árvores por iniciativa própria num terreno que faz parte do Parque Natural do Alvão?
Perguntámos ao GEOTA (Grupo de Estudos do Ordenamento do Território e do Ambiente), que vários projetos de reflorestação em curso, o que é preciso saber antes de avançar.
Um terreno público não é um terreno onde qualquer pessoa possa plantar
Segundo Miguel Jerónimo, coordenador dos projetos Renature do GEOTA, não basta que o terreno seja público para que qualquer pessoa possa nele fazer uma plantação.
“É necessário ter autorização ou acordo com a entidade responsável pela gestão do terreno. Em áreas protegidas, a intervenção pode estar ainda sujeita a regras e autorizações específicas, dependendo do local, das espécies e do tipo de intervenção”, especifica.
“Antes de plantar, é fundamental identificar quem é o proprietário ou a entidade responsável pela gestão do terreno e obter a respetiva autorização”, explica ainda.
É também preciso verificar se existem condicionantes legais aplicáveis à área, nomeadamente as que resultem do regime florestal, da Rede Natura 2000 ou de outras áreas classificadas.
Outro aspeto a verificar é a aplicação do Regime Jurídico das Ações de Arborização e Rearborização (RJAAR), que estabelece regras e procedimentos para as ações de arborização e rearborização em Portugal.
Mesmo que a intenção seja contribuir para a recuperação da natureza e não obter qualquer benefício pessoal, isso não significa que a plantação possa ser feita livremente.
É precisamente essa a preocupação de Ricardo. “Eu não estou a plantar árvores para mim ou para o meu benefício, estou a plantar para ajudar a Terra e as gerações futuras”, explica.
Ricardo quer evitar as zonas de intervenção dos bombeiros
O leitor diz também ter pensado na localização das plantações. Antes de plantar, pretende analisar imagens de satélite para identificar as zonas de contra-fogo e evitar áreas utilizadas pelos bombeiros e sapadores.
“Escolho os sítios com cuidado, analisando imagens de satélite para perceber onde as zonas contra-fogo estão localizadas, para que não esteja a plantar árvores em zonas usadas pelos bombeiros e sapadores para cortar os incêndios.”
A intenção seria plantar apenas em zonas de montanha, “sem estradas ou zonas contra-fogo por perto”.
Ainda assim, para o GEOTA, a escolha do local não deve ser feita apenas com base nesses critérios. É necessário identificar quem é o proprietário ou responsável pela gestão do terreno e verificar se a intervenção é legalmente possível e adequada do ponto de vista ecológico.
Ricardo pretende plantar apenas espécies locais do Alvão ou do Marão. Ainda assim, o facto de uma espécie ser autóctone não é, por si só, suficiente para determinar que é adequada para determinado local.
Na escolha das espécies, diz Miguel Jerónimo, é preciso ter em conta as características concretas do local – o solo, a disponibilidade de água, a altitude, a exposição e o clima – e não apenas serem autóctones.
Também é necessário olhar para aquilo que já existe, como “a vegetação, os habitats e as espécies” e pensar nos “objetivos da intervenção”, acrescenta.
A origem das plantas é igualmente importante. Miguel Jerónimo recomenda que se privilegiem “plantas de proveniências adequadas”.
Há ainda outro ponto a não esquecer. “É essencial planear os cuidados após a plantação”, como o “controlo da vegetação concorrente, a protecção contra a herbívora e a reposição de árvores quando necessário.”
Ricardo sabe que nem todas as árvores que plantarão chegarão à idade adulta. “Sei que não vão sobreviver todas. Sei que normalmente apenas 10% das árvores chegam à idade adulta. Mas se plantar 1000 árvores ao longo de um mês, isso significa que 100 se tornariam adultas, e isso vale a pena.”
Iniciativas de cidadãos são muito importantes
Para Miguel Jerónimo, iniciativas de cidadãos para melhorar os ecossistemas “podem ter uma importância muito significativa, sobretudo quando são realizadas de forma adequada e articulada com quem gere o território”. O responsável salienta que “a participação dos cidadãos pode contribuir para aumentar a área de vegetação autóctone, recuperar habitats degradados e aproximar as pessoas da conservação da natureza”.
O principal conselho que dá, para quem quer plantar árvores para ajudar a recuperar a natureza, é “não começar por comprar árvores e plantá-las. Primeiro deve ser avaliado o local, identificado o proprietário ou gestor e perceber se a plantação é adequada e legalmente possível. Depois, é importante escolher espécies adequadas às condições ecológicas do local e planear a plantação e a manutenção a médio e longo prazo”.
Uma outra possibilidade é os cidadãos juntarem-se “às inúmeras iniciativas de plantação e recuperação de habitats promovidas por diferentes entidades, de norte a sul do país, que decorrem normalmente entre novembro e março”.