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Crónicas Naturais: olho-de-flor

28.07.2026
leitura de 2 minutos
Olho-de-flor (Prionops plumatus). Foto: Bernard Dupont/WikiCommons

Cansados de verem as suas vacas dispersarem-se contra a sua vontade, os pastores da etnia Fula, na Guiné-Bissau, observaram atentamente os comportamentos da ave olho-de-flor (Prionops plumatus). Paulo Catry conta-nos esta história.

Guiné-Bissau, julho 2026

Durante uma missão ao interior da Guiné, recolhi uma receita do domínio da veterinária, ainda sem patente registada. Mamadu Uri Djalo, um homi garande da tabanca de Dulombi, explicou-me os detalhes deste tratamento que usa pássaros para manipular a mente das vacas.

Foto: Paulo Catry

A maioria das aves agregam-se em bandos de ocasião, sem ligações, temporárias que sejam, entre indivíduos concretos. São congregações que se formam aleatoriamente onde há alimento, em dormitórios ou em migração, bandos que facilitam a deteção de predadores ou de fontes de sustento. Algumas aves, contudo, formam grupos que mantêm uma coesão forte entre indivíduos particulares, ligação que se prolonga ao longo de meses ou até de anos.

Exemplo do que foi acima descrito, na Europa, é o chapim-rabilongo Aegithalos caudatus, uma espécie em que famílias alargadas (mais do que só pais e os filhos recentes) se mantêm juntas por períodos extensos. Na África Ocidental, destaca-se o poupinha Prionops plumatus, que melhor se chamaria olho-de-flor. É um pássaro de aparência exótica, com um magnífico olho ornamentado de pétalas amarelas, pertencente à família Vangidae (dos trópicos do Velho Mundo). Um dos nomes africanos para o poupinha, em língua fula, é tcholun buto (singular) ou tcholoi buto (plural).

Poupinha ou olho-de-flor (Prionops plumatus). Foto: Paulo Catry

Se, com fins científicos, capturarmos um ou dois tcholoi buto numa rede de anilhagem, logo os restantes membros do bando respondem aos chamamentos dos cativos e ali se mantêm de volta aflitos, sem quererem partir. Também quando voam livres pela savana, os tcholoi buto vão sempre conversando entre si e não se apartam uns dos outros, poisando amiúde lado a lado nos ramos, como se toda a distância física fosse excessiva. São reprodutores cooperativos, em que todos os membros do bando ajudam um casal reprodutor dominante (o único casal do grupo que se reproduz). 

Cansados de verem as suas vacas dispersarem-se contra a sua vontade, os pastores da etnia Fula observaram atentamente estes comportamentos. Os fula partilham o território com os tcholoi buto na África Ocidental, na extensa faixa de savana e floresta semi-seca que se estende para sul do Sara e a norte da floresta tropical húmida. 

Com a típica amálgama de ciência, indústria e magia africana, desenvolveram um mezinho (medicamento, poção) um pouco macabro, mas dito eficaz: primeiro, caçam (com visgo ou espingarda) um tcholun buto, removem-lhe as vísceras e secam-no ao sol. Estando bem seco, pilam-no (por vezes só a cabeça) até obterem uma poeira fina. 

Olho-de-flor (Prionops plumatus). Foto: Bernard Dupont/WikiCommons

Preparam depois um remédio (que também serve como purgante desparasitante) com casca de bicilão Khaya senegalensis moída, terra de termiteira e muito sal. Por fim, escavam umas pequenas bacias no solo vermelho, onde deitam água e estes ingredientes, adicionando a farinha de pássaro. As covas têm de ser, necessariamente, em número ímpar, a bem da saúde dos animais.

Atraídas pelo sal, as vacas ingerem a lama aguada com prazer. Sem disso terem consciência, bebem o tcholun buto, olho-de-flor, e deixam-se assim imbuir do princípio ativo da união em todas as ocasiões. Fica facilitado o trabalho do pastor.

Aspeto de uma tabanca fula na zona central da Guiné-Bissau. Foto: Paulo Catry

Nota: esta missão contou com o apoio do IBAP – Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas, Guiné-Bissau, e da FCT – Portugal.


Leia aqui outros textos já publicados por Paulo Catry, professor e investigador do Mare – Marine and Environmental Sciences Centre, Ispa – Instituto Universitário, na série Crónicas Naturais.

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