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Da Serra da Estrela ao estuário do Tejo: o país dos observadores de aves

14.05.2026
leitura de 5 minutos
José Frade a fotografar aves. Foto: D.R.

A Wilder falou com Gonçalo Elias e José Frade, os autores do livro “Guia de Observação: Os 100 Melhores Locais para Observar Aves em Portugal“, publicado em março. Saiba por que decidiram escrever este livro e como ele nos pode ajudar.

O mecânico da oficina de Castro Verde, no Baixo Alentejo, abanou a cabeça quando ouviu a palavra “cortiçol”. Mas bastou Gonçalo Elias mostrar-lhe a ilustração da ave no guia de campo para o homem reconhecer imediatamente a espécie: “Ah, sei muito bem o que isso é! Isso é a barriga-negra! Dantes via-se muito.” A conversa aconteceu em 1989, durante uma viagem de comboio e bicicleta pelo Baixo Alentejo, feita na esperança de encontrar uma das aves mais difíceis de observar em Portugal. Horas depois, dois cortiçóis-de-barriga-negra passaram literalmente por cima da cabeça de Gonçalo e do amigo que o acompanhava. “Tão depressa como surgiram, assim desapareceram”, recorda hoje.

A história é uma das muitas acumuladas ao longo de décadas de observação de aves e ajuda a explicar o espírito do livro “Guia de Observação – Os 100 Melhores Locais para Observar Aves em Portugal“, publicado em março por Gonçalo Elias e José Frade.

Mais do que um simples guia de destinos, o livro funciona como uma cartografia natural do país — um mapa de estuários, montanhas, lagoas, estepes e campos onde ainda é possível encontrar algumas das aves mais emblemáticas da Península Ibérica.

Coruja-do-nabal, percorrendo salinas na busca de alimento. Foto: João Lelo/Wiki Commons

A ideia nasceu de uma ausência sentida pelos próprios autores. “Até hoje não existia nenhum livro escrito em português que descrevesse, num único volume, os melhores locais de observação no território português”, explicou Gonçalo Elias. Existiam obras regionais e alguns guias em inglês, mas faltava um inventário actualizado e completo, pensado para o público português, capaz de responder à pergunta essencial de qualquer observador de aves: onde procurar?

O novo livro fecha também uma espécie de trilogia iniciada pelos autores nos últimos anos. Depois do Guia Fotográfico, dedicado às espécies, e de Como Observar e Fotografar Aves, centrado nas técnicas e equipamentos, faltava o terceiro elemento: os lugares.

E lugares não faltam. Portugal é hoje considerado um dos destinos mais interessantes da Europa para observação de aves, graças à diversidade de habitats concentrados num território relativamente pequeno. Além disso, recordou Gonçalo Elias, “há uma boa diversidade de aves ao longo de todo o ano”.

Assim, no mesmo país é possível procurar aves alpinas na Serra da Estrela, aves estepárias em Castro Verde, limícolas no estuário do Tejo ou aves marinhas ao largo de Peniche. Para os autores, essa diversidade continua, contudo, relativamente desconhecida de muitos portugueses.

Gonçalo Elias a observar aves. Foto: D.R.

“Quem estiver sempre a ver aves no mesmo sítio começa inevitavelmente a encontrar sempre as mesmas espécies”, explicou Gonçalo Elias. “Para conhecer novas aves é necessário visitar diferentes regiões e habitats. Mas sem informação, não é uma tarefa fácil.” O livro procura precisamente facilitar esse salto, reunindo informação prática sobre acessos, épocas do ano, espécies mais prováveis e estratégias de observação.

Para fazer este livro, os autores não precisaram de visitar todos os 100 locais. Apenas visitaram os “locais onde precisávamos de confirmar algumas informações sobre as aves ou os acessos ou em que pretendíamos obter fotos. Muitos dos locais descritos já conhecíamos bem de anos anteriores e tínhamos boas imagens, pelo que não foi necessário revisita-los”. Só existe um local onde nunca nenhum dos dois foi, a ilha do Corvo. “Contudo, dada a singularidade deste local, decidimos incluí-lo, tendo obtido informação relevante junto de outros observadores.”

Destes 100 locais, Gonçalo Elias seleccionou o seu top cinco que não se cansa de visitar para ver aves: Miranda do Douro, Serra da Estrela, Castelo de Vide/Marvão, Estuário do Tejo e Castro Marim. José Frade recordou que “tudo depende da época e se pretendemos algumas espécies diferentes”, mas o seu top 5 será: Serra da Estrela, Estuário do Tejo, Quinta do Lago, Peniche e Freixo de Espada-à-cinta.

Fotografar ou observar aves?

Embora associado tradicionalmente a um nicho de entusiastas, o birdwatching tem vindo a ganhar novos públicos, impulsionado pela fotografia de natureza, pelo turismo sustentável e pelo interesse crescente em actividades ao ar livre.

José Frade acredita que hoje coexistem vários perfis de observadores: os que querem apenas observar, os que procuram sobretudo fotografar e os que combinam as duas dimensões. “Alguns vão apenas observar, ou porque não lhes interessa perder muito tempo a fotografar ou porque não têm o equipamento necessário. Outros irão principalmente pela fotografia, muitas vezes apenas para melhorar as fotos de alguma espécie. Há ainda uma terceira vertente, aqueles que vão por ambas as modalidades, a fotografia e a observação”, explicou o fotógrafo.

José Frade a fotografar aves. Foto: D.R.

No livro, os autores incluem também sugestões fotográficas, embora rejeitem a ideia de que seja obrigatório ter equipamento sofisticado. “Não existe necessariamente essa obrigação, mas ajuda muito se o objectivo for obter as melhores imagens possíveis”, explicou José Frade. Uma objectiva de longo alcance, conhecimento técnico sobre o equipamento e conhecer as melhores técnicas de aproximação podem fazer a diferença entre “uma boa foto e uma foto medíocre”.

Mas a observação de aves vive tanto de sucessos como de fracassos. E talvez seja precisamente essa mistura que continua a atrair milhares de pessoas para uma actividade feita de espera, silêncio e persistência. “A frustração faz parte da experiência”, admitiu José Frade. Não encontrar uma espécie leva muitas vezes os observadores a tentar perceber o que falhou: “Será que deveria ter ido mais cedo? Deveria ter pedido mais informações?”

As histórias que ambos acumulam mostram também como a observação de aves raramente acontece isolada das pessoas e dos territórios. José Frade lembra uma viagem em 2014 a Carrazeda de Ansiães, em busca do chasco-preto. Depois de pedir autorização a um produtor local para entrar numa vinha, percebeu que o homem não fazia ideia do que era um “chasco-preto”. Só quando descreveu a ave surgiu o reconhecimento: “Ahh, o melro-buraqueiro!”

A ave acabou por desaparecer antes de conseguir a fotografia desejada. Em compensação, terminou a tarde na adega do proprietário a provar vinho do Porto caseiro. “Não melhorei as fotos do chasco, mas saí do local sem condições para conduzir”, recordou. “Felizmente estava com a minha esposa que levou o carro de volta para o hotel. Até hoje ainda mantenho o número de telemóvel do senhor José.”

Águia-de-Bonelli (Aquila fasciata). Foto: Artemy Voikhansky/WikiCommons

Para os autores, essa dimensão humana faz parte da própria essência da actividade. Observar aves é também aprender a olhar para o território, reconhecer os nomes populares das espécies, descobrir caminhos improváveis e ganhar uma relação mais próxima com os lugares.

“Pensamos que este livro pode ajudar a ter uma boa experiência na actividade de observação e fotografia de aves”, concluiu Gonçalo Elias. Além disso, acrescentou, “acreditamos que se as pessoas conhecerem melhor o mundo natural que nos rodeia, nomeadamente as várias espécies de aves selvagens, ficarão mais sensibilizadas para a importância da sua conservação”.


Artigo apoiado pelo Naturcôa – Aves & Património.

A 23 de maio, os autores Gonçalo Elias e José Frade vão apresentar o seu livro durante uma palestra neste festival. Pode consultar o programa aqui.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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