PUB

Caldas da Rainha: “Não conseguimos imaginar como teriam sido estes dias se a Lagoa e o Paul não existissem”

13.02.2026
leitura de 3 minutos
Paul de Tornada. Foto: Wilder/Arquivo

As zonas húmidas da Lagoa de Óbidos e do Paul de Tornada estão a ajudar a proteger as povoações do concelho das Caldas da Rainha do mau tempo. Saiba como nesta curta entrevista a Carla Sousa Santos, bióloga e técnica superior no município.

WILDER: Como é que estas zonas húmidas estão a proteger as povoações das Caldas da Rainha?

Carla Sousa Santos: Todas as zonas húmidas, como é o caso do Paul de Tornada e da Lagoa de Óbidos, são como esponjas naturais de maior ou menor dimensão que prestam um importante serviço às populações que vivem nas suas imediações. De facto, em períodos de chuva intensa, estas zonas armazenam grandes volumes de água que, de outra forma, escoariam rapidamente para as linhas de água e zonas urbanas das Caldas da Rainha, provocando cheias e inundações rápidas. Mesmo quando ocorrem estes fenómenos extremos de precipitação a que temos sido sujeitos, as zonas húmidas abrandam a energia dos caudais torrenciais e amortecem o escoamento da água. Não conseguimos imaginar como teriam sido estes dias no concelho se a Lagoa e o Paul não existissem, mas é certo que a situação teria sido bastante mais grave. 

W: Este volume de água já foi registado noutros anos ou é algo raro?

Carla Sousa Santos: Talvez não seja completamente inédito se considerarmos um registo histórico bastante longo, mas não é seguramente frequente. Pelo menos no Paul de Tornada não há memória de ter sido atingido um nível tão elevado de alagamento. Os invernos muito chuvosos traduzem-se, obviamente, numa maior retenção de água nestes ecossistemas. No entanto, o que diferencia estas semanas daquilo a que podemos chamar uma situação habitual é a persistência da chuva; a ocorrência de várias depressões seguidas, sem tempo para a rede de sistemas aquáticos (rios, paul e lagoa) drenar completamente; e a elevada saturação em água dos solos, que contribuiu também para aumentar o escoamento superficial ao longo das encostas, que alimentam ainda mais o caudal das nossas linhas de água e zonas húmidas.

W: Quais os impactos destas depressões no Paul de Tornada e na Lagoa de Óbidos?

Carla Sousa Santos: A chuva intensa e persistente provocou uma subida rápida do nível da água, com inundação de vastas áreas, galgamento dos habituais leitos dos rios e forte erosão das margens dos rios e da Lagoa. Estes caudais torrenciais provocaram um transporte acrescido de sedimentos, detritos, matéria orgânica de diferentes proveniências e, eventualmente, poluentes diversos. No caso da Lagoa de Óbidos, esta situação teve, de imediato, um impacto económico negativo para várias dezenas de pescadores e mariscadores que viram o seu trabalho impedido pelas condições adversas. A curto prazo, será possível perceber se a ressuspensão de sedimentos e a rápida alteração da salinidade da Lagoa (devida à entrada de um elevado volume de água doce na Lagoa) não terá tido impactos negativos adicionais para as atividades económicas. Mais concretamente, a rápida alteração dos parâmetros físico-químicos da água da Lagoa (salinidade, turbidez, oxigénio, temperatura, pH e nutrientes) pode ter tido impactos negativos na fisiologia, crescimento e reprodução de várias espécies com interesse comercial. Relativamente aos ventos fortes, estes provocaram sobretudo um aumento da agitação marítima, com um forte impacto na zona da embocadura da Lagoa de Óbidos e faixa costeira adjacente, a ressuspensão de sedimentos e a queda de árvores. Neste caso, o impacto ainda não foi possível de avaliar completamente no Paul de Tornada, uma vez que os trilhos que o contornam permanecem intransitáveis.

W: Esta inundação pode, ou não, ser benéfica para os ecossistemas e vida selvagem?

Carla Sousa Santos: Apesar do significativo impacto para pessoas e infraestruturas, cuja dimensão ainda está por avaliar dada a atual situação de risco de derrocadas e deslizamento de terras, esta sucessão de tempestades pode ter tido algumas vantagens importantes para as zonas húmidas do concelho. De facto, caso o alagamento de áreas habitualmente a seco não tenha resultado no arrastamento de poluentes responsáveis por uma contaminação significativa da Lagoa de Óbidos e do Paul de Tornada, as cheias podem ter tido benefícios ecológicos para estes ecossistemas, nomeadamente: recarga dos aquíferos subterrâneos; enriquecimento dos solos por deposição de nutrientes; criação de novos habitats temporários para a biodiversidade; e aumento da disponibilidade de alimento para várias espécies.

O que se observou este mês no Paul de Tornada e na Lagoa de Óbidos é o cumprimento dos principais serviços de ecossistema das zonas húmidas: proteger pessoas, armazenar água, amortecer cheias e, ao mesmo tempo, renovar e fortalecer estes espaços que devem continuar a ser valorizados e preservados.


Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca