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Soluções: saiba como o Paul de Tornada está a proteger a vila das cheias

09.02.2026
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Paul a 5 de fevereiro, o pico das chuvas na região. Foto: Centro Educativo Ecológico do Paul de Tornada

Os pauis e zonas húmidas do país são uma das melhores soluções para as povoações se protegerem de episódios de chuvas intensas e prolongadas. Conheça o exemplo do Paul de Tornada que está a proteger a vila de Tornada, no concelho das Caldas da Rainha, com a ajuda de Sara Moreira, do Centro Ecológico Educativo deste paul.

Basta percorrer apenas cinco quilómetros desde a cidade das Caldas da Rainha (Leiria) para chegarmos aos 45 hectares do Paul de Tornada. A Reserva Natural Local do Paul de Tornada, nas Caldas da Rainha, é uma zona húmida de importância internacional – sítio Ramsar desde 2001 – onde vivem mais de 140 espécies de animais. Tem cerca de 45 hectares, 25 dos quais permanentemente alagados e um sistema de valas de drenagem que conflui no rio Tornada.

Paul a 5 de fevereiro, o pico das chuvas na região. Foto: Centro Educativo Ecológico do Paul de Tornada

WILDER: De que forma está esta zona húmida a proteger a vila de Tornada?

Sara Moreira: A Reserva Natural Local do Paul de Tornada funciona, na prática, como uma esponja gigante e um amortecedor natural. A sua importância é reconhecida internacionalmente pela Convenção de Ramsar (classificado como Sítio Ramsar desde 2001), precisamente pela sua capacidade de prestar múltiplos Serviços de Ecossistemas vitais, como a atenuação do impacto de cheias e tempestades.

O Paul de Tornada funciona como uma bacia de retenção natural. Quando a água vinda das várias linhas de água da cidade das Caldas da Rainha, em especial durante cheias e tempestades, chega ao Paul de Tornada, a sua velocidade diminui graças à presença de vegetação ripícola e grande parte desta fica armazenada e escoa em muito menor quantidade e velocidade em direção ao rio Tornada. 

A vegetação densa e as plantas ripícolas típicas de zonas húmidas criam uma “barreira de fricção”. Esta vegetação abranda a velocidade da água à medida que esta entra no ecossistema, retirando-lhe o poder destrutivo que teria se corresse livremente por canais artificiais ou terrenos impermeabilizados. Após o pico da tempestade, o Paul liberta a água de forma muito mais lenta e controlada em direção ao rio Tornada e à baía de São Martinho do Porto.

Paul a 5 de fevereiro, o pico das chuvas na região. Foto: Centro Educativo Ecológico do Paul de Tornada

Se o Paul de Tornada não existisse, a massa de água que alagou por completo os trilhos deste ecossistema teria atravessado a vila de Tornada e as terras circundantes com uma velocidade e volume muito superiores, transformando-se num desastre com danos materiais e humanos muito mais acentuados.

W: Este volume de água retido agora no paul já tem sido registado noutros anos? Ou é algo raro?

Sara Moreira: Embora o cenário atual impressione pela sua magnitude, a memória coletiva da região guarda recordações de episódios semelhantes. Relatos de populares indicam que, há cerca de cinco ou seis décadas, o Paul de Tornada apresentava níveis de alagamento semelhantes aos atuais, num ciclo de cheias que era encarado com maior naturalidade e frequência pela comunidade local. Contudo, este padrão parece ter sofrido ao longo tempo, uma vez que, desde o início do trabalho da Associação PATO no ecossistema, no final dos anos 80, não existia registo de inundações frequentes, muito menos com estas dimensões.

Paul a 9 de fevereiro, depois de alguma descida do nível das águas. Foto: Centro Educativo Ecológico do Paul de Tornada

Esta realidade mudou em especial nos últimos cinco anos. Desde 2021, temos testemunhado cheias cada vez mais intensas e regulares, que tornam a circulação pelos trilhos da Reserva frequentemente impossível. Ainda assim, o volume de água retido resultante destas últimas tempestades destaca-se como o mais elevado de que temos memória nas últimas décadas, representando uma surpresa mesmo para a equipa do Centro Ecológico Educativo do Paul de Tornada (Associação PATO e GEOTA), que acompanha diariamente a dinâmica deste Sítio Ramsar. Este fenómeno recente sugere que estamos a entrar num novo ciclo de eventos extremos, onde a função amortecedora do Paul de Tornada se torna mais vital do que nunca.

W: Estas chuvas terão algum impacto negativo nas importantes populações de cágados, nomeadamente do cágado-de-carapaça-estriada, do paul?

Sara Moreira: À partida, estas chuvas não terão qualquer impacto negativo no ciclo de vida das duas espécies de cágados nativos presentes no Paul de Tornada, o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa). Este cenário justifica-se pelo facto de nos encontrarmos na época em que estes animais estão em brumação, um estado de dormência em que o metabolismo é reduzido ao mínimo para conservar energia durante o inverno. Durante este período, os cágados permanecem inativos, frequentemente abrigados no fundo da massa de água ou enterrados no lodo, pelo que a sua atividade é quase nula e a necessidade de alimentação é praticamente inexistente. 

W: E pode esta inundação ser benéfica para os ecossistemas e vida selvagem do paul? Se sim, de que forma?

Sara Moreira: Os ecossistemas e a vida selvagem estão adaptados e preparados para este tipo de eventos climáticos e intempéries. Naturalmente, terá existido a destruição de ninhos de aves que estavam a iniciar a sua construção, nomeadamente de garças-reais. No entanto, as mesmas ainda não teriam feito as suas posturas e por isso, irão construir novos ninhos, não pondo em causa a época de reprodução destas espécies.

Paul a 9 de fevereiro, depois de alguma descida do nível das águas. Foto: Centro Educativo Ecológico do Paul de Tornada

Além disso, a entrada de uma grande massa de água que transbordou para os trilhos e para as valas e terrenos laterais que circundam este ecossistema, contribui para a renovação de sedimentos e matéria orgânica que funcionam como uma fertilização natural. Com estas cheias, criaram-se também múltiplos charcos temporários de profundidades variáveis dos quais espécies de anfíbios e invertebrados farão uso para a reprodução.


Saiba aqui por que é este paul tão importante para as duas únicas espécies portuguesas de cágados selvagens.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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