A inundação excecional da marisma ao longo do último ano beneficiou a vegetação e a reprodução de aves, anfíbios e insetos aquáticos, revela o relatório sobre a biodiversidade de Doñana, apresentado a 5 de fevereiro em Sevilha.
Doñana continua a ter um enorme valor ecológico mas há sintomas preocupantes, segundo o relatório Estado da Biodiversidade de Doñana 2025 que reúne os resultados do programa de monitorização ambiental da Infraestrutura Científica e Técnica Singular – Reserva Biológica de Doñana (ICTS-Doñana), dependente da Estação Biológica de Doñana, do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC).
“As precipitações deste ano apontam para uma evolução positiva de Doñana, embora persistam problemas muito importantes que exigem esforços constantes a longo prazo e que não se resolvem com um ano bom de chuvas, nem com dois”, disse Eloy Revilla, diretor da Estação Biológica de Doñana (EBD-CSIC), durante a apresentação.
Durante mais de uma década, Doñana sofreu precipitações abaixo da média, com uma seca muito acentuada em 2022 e 2023. O ciclo hidrológico 2024-2025 registou uma precipitação total de 675 mm, um valor superior à média histórica de 530 mm.
As precipitações concentraram-se de forma intensa em curtos períodos de tempo, especialmente em março, quando foram registados 287,2 mm, correspondendo a 42,6% do total anual. Estas chuvas provocaram fortes cheias nas ribeiras que alimentam a marisma e originaram um enchimento excecional. Em março de 2025, a marisma atingiu uma inundação próxima dos 100%, algo que não acontecia desde 2010. Manteve-se com água durante 157 dias, quase o dobro da média histórica de 79 dias, colocando este ciclo entre os mais longos desde 1984.
As fenocâmaras e torres de fluxo instaladas na Reserva Biológica de Doñana, que analisam diariamente a vegetação e o seu ambiente, mostram ainda uma marisma com maior vigor vegetal do que no ano anterior e com mais do dobro da produtividade.
Aves aquáticas: baixa abundância, mas melhor reprodução
A ICTS-Doñana faz censos periódicos de aves aquáticas. Em janeiro foram contabilizadas 178.907 aves invernantes, um valor inferior à média histórica para este mês, situada em torno das 280.000 aves, e muito distante dos máximos registados no final dos anos 80 e início dos anos 90, quando se ultrapassavam as 600.000 aves.
De um modo geral, em 2025 a maioria das espécies apresenta aumentos de abundância face a 2024. No entanto, ao analisar a série temporal dos últimos 20 anos, observa-se um declínio acentuado, sustentado e consistente entre os dados recolhidos pelos censos. Em particular, as espécies consumidoras de vegetação, limícolas de pequeno porte, piscívoras e patos de superfície são os grupos mais afetados, com quebras especialmente severas, entre 69% e 80%.
A situação do ganso-bravo é particularmente surpreendente. Esta espécie, profundamente ligada ao imaginário coletivo de Doñana, atingiu mínimos históricos de indivíduos invernantes, com apenas 3.500 aves censadas, números que levantam sérias preocupações quanto ao seu futuro no ecossistema invernal de Doñana.
Com o grosso das precipitações em março, a melhoria hídrica não se traduziu numa melhor invernada, mas teve um efeito positivo na reprodução. Em 2025, o número de casais reprodutores aumentou em 85% das espécies relativamente a 2024. Ainda assim, a análise dos últimos 20 anos continua a ser preocupante: cerca de três quartos das espécies mostram um declínio no número de casais reprodutores, associado à degradação hidrológica de Doñana. A médio prazo, os declínios afetam mais de metade das espécies.
Por seu lado, a campanha de anilhagem de passeriformes durante a migração pós-nupcial, realizada desde 1994, apresenta um panorama relativamente estável. Em 2025 foram anilhadas cerca de 1.700 aves pertencentes a 52 espécies, valores muito semelhantes à média histórica do programa. Os migradores pré-saarianos mostram estabilidade ou ligeiros aumentos, enquanto os migradores transaarianos registam um declínio moderado. Estas diferenças poderão estar relacionadas com vários fatores, como o adiantamento da migração, uma menor permanência destas aves na área de Doñana ou alterações nas zonas europeias de repouso e invernada.
Anfíbios e insetos aquáticos, os mais beneficiados
As chuvas do último ano tiveram efeitos positivos em alguns grupos. Os escaravelhos aquáticos, por exemplo, atingiram em algumas zonas um dos níveis de abundância mais elevados da última década, provavelmente devido à maior disponibilidade de habitats aquáticos.
Os anfíbios foram outros dos grandes beneficiados, com melhores condições para a reprodução. Destacam-se a rã-comum e o sapo-de-unha-negra, as espécies mais frequentemente detetadas nas amostragens. A salamandra-de-costelas-salientes voltou a ser observado em mais localidades após os anos recentes de seca.
Os répteis, como lagartixas e osgas, mantêm uma elevada diversidade, e as áreas afetadas pelo incêndio de 2017 mostram uma recuperação notável. A deteção de espécies de interesse, como a lagartixa-de-Carbonell, um endemismo ibérico classificado como “vulnerável”, reforça o valor de Doñana para a conservação de espécies ameaçadas.
Pressão das espécies invasoras
Em habitats degradados ou com regimes hídricos instáveis continuam a dominar espécies oportunistas e invasoras, que continuam a ser um dos grandes desafios para a biodiversidade de Doñana. Entre elas está o lagostim-vermelho-do-Louisiana e o caranguejo-azul.
No que respeita à flora invasora, as azedas (Oxalis pes-caprae), continuam a aumentar a sua capacidade de colonização, ocupando áreas cada vez maiores e formando populações mais densas. Em 2025, o acompanhamento da formiga-argentina revela que continua presente na Reserva Biológica de Doñana, embora sem sinais adicionais de expansão.
Algumas espécies nativas em estado crítico
Em muitos outros grupos de espécies nativas, as tendências continuam a ser preocupantes. No meio aquático, a situação dos peixes nativos é crítica: apenas três espécies foram registadas na marisma e uma nas lagoas, com abundâncias mínimas na primavera de 2025. Em contraste, os peixes exóticos são maioritários, com espécies como a gambúsia, a mais disseminada, ou o peixe-gato, que voltou a aumentar a sua presença.
A situação é igualmente crítica para as espécies nativas de tartarugas terrestres e aquáticas. A tartaruga-mourisca atingiu em 2025 um dos valores mais baixos de abundância de toda a série histórica. O cágado-mediterrânico e o cágado-europeu, incluídos no Catálogo Espanhol de Espécies Ameaçadas, registaram mínimos populacionais. Estes dados evidenciam a fragilidade destas espécies face às secas recorrentes.
As borboletas registaram em 2025 uma das abundâncias mais baixas da série histórica, possivelmente afetadas por eventos de precipitação de caráter torrencial. Ainda assim, foram detetadas espécies que não eram observadas há vários anos, como a Cyaniris semiargus, registada pela última vez há cinco anos, e Laeosopis roboris, cujo último registo remontava a 12 anos.
No caso dos mamíferos, coelhos e lebres continuam a ter populações muito reduzidas, afetando espécies emblemáticas que deles dependem. Quanto aos micromamíferos, roedores e outros pequenos mamíferos, os efetivos são baixos em todas as espécies.
Melhorias pontuais e tendências negativas a longo prazo
Segundo os autores do relatório, “os dados recolhidos no último ano evidenciam o valor excecional de Doñana para a conservação da biodiversidade”.
Registam-se avanços em 2025, como a inundação excecional da marisma e melhorias nos indicadores de algumas espécies. Ainda assim, Doñana continua a enfrentar desafios estruturais importantes.
“A limitada inundação das lagoas, o declínio de algumas espécies autóctones e a expansão de espécies invasoras, entre outros fatores, evidenciam a fragilidade do ecossistema.”
“Os dados recentes são encorajadores, mas garantir o valor ecológico de Doñana exigirá ações continuadas no tempo, que enfrentem estes desafios de forma integrada.”
O Governo de Espanha concebeu dois Marcos de Atuação para Doñana que conjugam restauro ambiental e sensibilização social, procurando salvaguardar os valores ecológicos do território e contribuir para um desenvolvimento económico sustentável e integrado com as necessidades da região. Na sua execução estão envolvidos 13 ministérios.