Exposição que comemora 13 anos de atividade do EVOA – Espaço de Visitação e Observação de Aves dá-nos a conhecer a biodiversidade e o mundo rural, e o cruzamento entre ambos, nestas paisagens da Reserva Natural do Estuário do Tejo.
A ligação ao campo, à paisagem e à biodiversidade têm sido uma presença constante para António Heitor. Aos 50 anos, este técnico florestal divide o seu tempo entre a gestão de recursos naturais e a fotografia de natureza.
Licenciado em Engenharia Florestal e especializado em Gestão de Recursos Naturais, António Heitor trabalha como técnico da CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal e presta também serviços de consultoria rural e ambiental, principalmente em questões de biodiversidade. Além disso, é guia do EVOA- Espaço de Visitação e Observação de Aves.
Foi precisamente a partir desse território gerido pela Companhia das Lezírias, que se estende por mais de 70 hectares de zonas húmidas de água doce na Reserva Natural do Estuário do Tejo, que nasceu a sua mais recente exposição fotográfica, “A Magia do EVOA”. Inaugurada no início de dezembro para festejar os 13 anos deste espaço, pode ser ali visitada durante estes próximos meses.



Flamingos, em Agosto de 2021. “São talvez a espécie mais procurada no EVOA. Nesta época do ano costumam passar largas temporadas nas lagoas.”



“No caso dos colhereiros o objectivo é mostrar a razão para o nome desta ave. Ter o bico na posição certa é fundamental.”

“Em dezembro de 2017 estava a terminar o dia de trabalho no EVOA quando os colhereiros começaram a levantar do estuário para os dormitórios.”

“Foto típica de uma narceja de Verão quando começam a chegar da migração às lagoas do EVOA.”
Quem visitar esta mostra, pode conhecer 20 fotografias tiradas no EVOA e na Lezíria do Tejo, ao longo de uma dezena de anos, que reproduzem o que poderá ser um dia de passeio por estas paisagens: tudo começa por um nascer do sol à entrada da Lezíria – até porque “a visita ao Espaço de Visitação começa assim que se entra” naquele território, sublinha o autor – passando depois por imagens captadas nos arrozais e nas lagoas, até à fotografia final com um pôr do sol no EVOA. “A exposição mostra momentos, cores, aves e fauna e resume a razão pela qual os visitantes regressam a casa satisfeitos”, resume.
Entre as imagens expostas, António Heitor destaca a fotografia de um bando de milherangos, também chamados de maçaricos-de-bico-direito (Limosa limosa), a sobrevoar um campo de arroz com a ermida de Alcamé ao fundo. Para ele, essa imagem sintetiza o conceito do seu projeto Naturalmente Rural, no qual procura reunir na natureza, a atividade económica e a cultura. “São pilares fundamentais do nosso desenvolvimento enquanto sociedade”, considera.

Um bando de milherangos no EVOA. “Trabalhar no EVOA envolve não apenas as visitas, mas também contagens de aves nas lagoas. Este bando estava a descansar na lagoa rasa e enquanto eu as contava um falcão peregrino (último ponto à direita da imagem) atacou. A imagem foi feita com o cuidado de incluir o edifício e assim dar contexto.” Foto: António Heitor
Outra fotografia marcante é a de um guarda-rios (Alcedo atthis), não só pela dificuldade técnica, mas pelo trabalho de estudo do comportamento da espécie e do local. Um exemplo claro de que, como lembra que aprendeu com o fotógrafo Vítor Neno, “as imagens fazem-se com bastante trabalho e um pouquinho de sorte”.

Foto: António Heitor
Como tudo começou
O interesse pela fotografia surgiu de forma gradual e muito ligada ao seu percurso profissional, recorda António Heitor. O gosto pelo campo e pelo mundo rural vem de família e ganhou força durante os anos de faculdade no Instituto Superior de Agronomia, muito por influência de professores como António Fabião e João Bugalho, cujas conversas o ajudaram a dar “coerência e a robustez à vivência familiar”.
Inicialmente, a fotografia foi sobretudo uma ferramenta de trabalho, utilizada para registar detalhes da fauna e da flora para seres mais tarde analisados, mas com o desenvolvimento da tecnologia digital essa prática tornou-se mais eficaz e frequente. “Como sempre trabalhei em gestão de fauna e flora selvagem e sou ornitólogo, fotografar as espécies bravias e as paisagens de que tanto gosto tornou-se naturalmente numa rotina e mais tarde numa coisa mais séria”, nota.
Foi através das aves que tudo começou, lembra também. Ainda como estudante universitário deu os primeiros passos na observação e estudo desse grupo, influenciado por professores como Luís Reino e Luís Gordinho. “Passaram-me este vício”, recorda. Com o tempo, entretanto, também os temas agrícolas e florestais têm ganho protagonismo – em especial depois de lançar o projeto Naturalmente Rural, sob orientação de Vítor Neno.

O arroz da Lezíria, em setembro de 2021. “Outra das imagens clássicas da Lezíria. É preciso escolher o local e depois aproveitar as nuvens para que o céu não fique ‘sem interesse’. Também aqui o moinho acaba por dar mais alguma informação interessante.” Foto: António Heitor
Foi com o fotógrafo Vítor Neno que aprendeu a “olhar para a fotografia de outra forma” e a encará-la como uma ferramenta de comunicação. “No nosso país não podemos separar o mundo rural do mundo natural”, defende, sublinhando que um não existe sem o outro.
“Podemos não ser agricultores, mas somos consumidores”, afirma, ao mesmo tempo que defende escolhas mais informadas e um olhar mais atento. “Parece que temos vergonha de ser “português”, como se o que fosse feito lá fora fosse de melhor qualidade e que o ser “rural” seja sinónimo de atraso civilizacional. Esta conjugação tem contribuído (não sendo a única razão) para o abandono do nosso campo e para a fragilização das nossas paisagens.” Se a fotografia puder contribuir para que as pessoas “pensem um pouco antes de ir às compras ou de se sentarem à mesa para uma reflexão”, então, garante, continuará a aproveitá-la.