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UICN: Quatro especialistas explicam consequências da saída dos EUA

08.01.2026
leitura de 8 minutos
Parque Nacional de Yosemite, EUA. Foto: King of Hearts/WikiCommons

Os Estados Unidos têm sido um dos maiores financiadores públicos de conservação a nível mundial. Recentemente anunciaram a saída da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), por ser contrária aos seus interesses nacionais. E agora? Conheça os comentários de Maria Amélia Martins-Loução, Jorge Palmeirim, Filipa Palmeirim e Helena Freitas.

A UICN, criada em 1948, é a maior rede mundial dedicada à conservação da natureza. Dela fazem parte mais de 1400 membros e 17.000 especialistas, números que a tornam na autoridade mundial para avaliar o estado do mundo natural e das medidas necessárias para o proteger.

Jorge Palmeirim, investigador e professor associado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, atesta o valor e importância desta organização. “A UICN desempenha um papel central na conservação da biodiversidade a nível global, articulando o trabalho de parceiros de natureza muito diversa, como a comunidade científica, governos, ONGA, instituições internacionais, entre outros”, explica à Wilder.

O seu trabalho é extenso. “Tem um papel crucial na ligação entre a ciência e a conservação, catalisa e orienta parcerias, disponibiliza apoio técnico a governos e desenvolve projetos de conservação no terreno, ainda que essa não seja a sua função principal. Teve, por exemplo, um papel muito relevante no apoio à criação e estruturação de instituições estatais de conservação da natureza em vários PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa).”

Agora, os Estados Unidos consideraram que a UICN é contrária aos interesses norte-americanos e que, por isso, vão deixar de a apoiar. E isso é relevante, até porque, por exemplo, foram o quinto maior doador para a UICN no ano de 2024. Apesar disso, “a poupança financeira resultante do abandono da UICN é, para um país com um PIB tão elevado, irrisória”, salienta Jorge Palmeirim.

A importância dos EUA

“Os EUA têm tido um papel importante no financiamento de ações de conservação da biodiversidade, especialmente por meio da United States Agency for International Development (USAID) e contribuições a mecanismos multilaterais como o Fundo Global para o Ambiente (GEF)”, lembra à Wilder Ana Filipa Palmeirim, professora em Conservação/Ecologia na Université Libre de Bruxelas.

“De facto, a USAID foi o principal instrumento dos EUA para financiamento de desenvolvimento e conservação global. Por exemplo, em 2022, a USAID investiu aproximadamente 383 milhões de dólares (cerca de 328 milhões de euros) em programas internacionais de biodiversidade em mais de 60 países.”

Um dos projetos apoiados pela USAID foi, por exemplo, a recuperação do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. Segundo Jorge Palmeirim, esta iniciativa “recebeu apoio significativo da USAID durante décadas”, apoio que “terá sido fundamental para o grande sucesso do projeto”.

A mesma opinião tem Maria Amélia Martins-Loução, presidente da SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.

“As diferentes organizações dedicadas à conservação tinham os EUA entre os maiores financiadores bilaterais de projetos de natureza, já que têm sido um dos principais contribuintes para o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), que alimenta programas globais em dezenas de países em desenvolvimento, incluindo proteção de áreas marinhas e terrestres, adaptação climática e gestão de ecossistemas.​ Por outro lado cada dólar investido pelo governo dos EUA podia desencadear cerca de quatro dólares adicionais do setor privado, ampliando, assim, o impacto dos fundos públicos norte‑americanos, combinando fundos públicos com filantropia e investimento privado.”​

Mas esta não é uma ajuda garantida. Filipa Palmeirim salienta que “este financiamento é altamente sensível a mudanças políticas internas”, o que “compromete esforços contínuos em conservação”.

Tanto assim é que, em 2025, a agência USAID foi dissolvida e a sua estrutura absorvida pelo Departamento de Estado dos EUA. “Dos projetos em andamento financiados pela USAID em 2025, 83% foram imediatamente cancelados, impactando seriamente várias organizações não governamentais de conservação que dependiam deste recurso, assim como as pessoas empregadas nos projetos em andamento por todo o mundo”, acrescenta Filipa Palmeirim.

Mas mesmo sendo um financiador central, “o contributo dos EUA representa apenas uma fracção do que seria necessário para colmatar o défice global de financiamento da conservação”, alerta Maria Amélia Martins-Loução. “Estimativas recentes apontam que o mundo gasta cerca de 100 mil milhões de dólares por ano em biodiversidade, perante uma necessidade adicional de cerca de 700 a 800 mil milhões anuais.”

A importância norte-americana na biodiversidade mundial também é salientada por Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, titular da cátedra da Unesco para a Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável.

“Os Estados Unidos têm sido um dos atores mais relevantes no financiamento global da conservação da biodiversidade, através de contribuições públicas canalizadas por agências governamentais e por mecanismos multilaterais (como o USAID). Estes recursos têm apoiado iniciativas em países em desenvolvimento, incluindo a criação e gestão de áreas protegidas, o combate ao tráfico de espécies e a integração da biodiversidade em estratégias de desenvolvimento sustentável. Para além do volume financeiro direto, a influência política dos EUA tem sido determinante na definição de prioridades e na mobilização de financiamento adicional a nível internacional”, conta à Wilder.

E há algo que diferencia a ajuda norte-americana. “Um elemento distintivo da contribuição norte-americana reside no papel da filantropia privada, das organizações não governamentais e das instituições académicas sediadas nos EUA, que representam uma parcela substancial do financiamento internacional da biodiversidade. No entanto, esta relevância é marcada por elevada volatilidade, associada a mudanças de orientação política interna.”

​Impactos e consequências do abandono norte-americano

É verdade que “os financiamentos provenientes do governo dos EUA eram importantes para a realização de várias atividades, e algumas delas serão certamente afetadas”, diz Jorge Palmeirim.

Mas, na sua opinião, “mais preocupante do que o impacto direto dos cortes de financiamento, é o que eles significam em termos da postura do governo dos EUA face à conservação da natureza”.

Até porque o impacto destes cortes de financiamento “será atenuado pelo facto de a UICN contar com outros financiadores, públicos e privados, significativamente mais relevantes”, lembra este investigador, acrescentando que “a UICN vai continuar a receber financiamentos não governamentais dos EUA, assim como apoio técnico e científico de muitas entidades nacionais, e a ser uma instituição muito fundamental a nível global”.

O maior problema é que “esta saída da UICN revela um certo antagonismo em relação à conservação da natureza, que pode influenciar as prioridades de instituições internacionais importantes (como o GEF e muitas outras), das quais o país ainda é parceiro”.

Jorge Palmeirim considera também que “ainda é difícil avaliar qual será o impacto real desta nova postura, uma vez que depende não só da posição formal do governo dos EUA, mas também das instituições e até das pessoas envolvidas”.

Uma coisa parece certa para Filipa Palmeirim. “A saída dos EUA da UICN vai necessariamente implicar numa menor participação do país no diálogo global sobre conservação e biodiversidade.” Além disso, “haverá também uma diminuição no que toca à integração das políticas ambientais americanas com os objetivos globais de biodiversidade”.

Maria Amélia Martins-Loução recorda que esta tendência já vem de trás. “A UICN tem vindo a sentir as actuais políticas erráticas dos EUA, desde que Donald Trump assumiu o poder. O próprio ‘poder de influência’ científico‑político dos EUA em agendas globais de natureza e clima tem sido afectado pelos cortes sucessivos e pressões sobre investigadores, sobre universidades e sobre os financiadores dessas mesmas universidades.​”

O seu receio é que esta tomada de posição norte-americana crie na governação mundial do ambiente um “efeito dominó, originando a retração e saída de dezenas de outras instâncias de clima e biodiversidade (UNFCCC, IPCC, IRENA, IPBES, etc.)”. Ao mesmo tempo pode facilitar “que outros países relaxem compromissos de conservação e clima, diminuindo a ambição coletiva”.​

No fundo, “o impacto desta saída tende a enfraquecer ainda mais a cooperação internacional em conservação, reduzir financiamento e capacidade técnica disponível e a desvalorizar os problemas da perda de biodiversidade e das alterações do clima”.

Segundo Helena Freitas, “um menor envolvimento dos EUA criará lacunas difíceis de colmatar no curto prazo, exigindo maior protagonismo de outros atores globais e podendo comprometer a estabilidade e a eficácia dos esforços internacionais de conservação”.

Na opinião desta especialista, “a saída dos Estados Unidos da União Internacional para a Conservação da Natureza terá implicações políticas e institucionais profundas para a governação global da biodiversidade”.

“Enquanto ator central no sistema internacional, a ausência dos EUA enfraquece a legitimidade e a capacidade de influência da UICN na definição de normas e orientações técnicas amplamente adotadas por Estados, agências multilaterais e organizações da sociedade civil. Esta saída poderá também reforçar tendências de fragmentação da cooperação ambiental internacional, num contexto já marcado por tensões geopolíticas e por dificuldades na implementação de compromissos globais.”

Já no âmbito da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD), “a saída dos EUA da UICN terá efeitos indiretos, mas relevantes”, considera Helena Freitas. “Embora os EUA não sejam Parte da CBD, a UICN desempenha um papel crucial como ponte entre ciência e política, apoiando tecnicamente a implementação das decisões da Convenção. A diminuição do envolvimento norte-americano enfraquece esse papel de mediação científica, num momento em que a credibilidade técnica e a coerência das orientações globais são essenciais para transformar compromissos políticos em ação concreta”.

“Este impacto torna-se particularmente crítico no contexto do Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, que exige uma mobilização sem precedentes de conhecimento científico, financiamento e cooperação internacional. A UICN é um ator-chave no acompanhamento de metas, indicadores e boas práticas associadas ao Quadro. A ausência dos EUA reduz a capacidade coletiva de apoiar a implementação efetiva das metas até 2030, aumentando o risco de um novo ciclo de incumprimento global semelhante ao observado nas Metas de Aichi.”

Como passará a ser o compromisso dos EUA com a natureza?

Ainda assim, esta decisão não implica o fim da participação norte-americana na conservação mundial da natureza. Jorge Palmeirim recorda que “existem várias outras instituições governamentais americanas com papel relevante na conservação global, como o U.S. Fish and Wildlife Service”.

Apesar dos recentes cortes do governo federal dos EUA no financiamento ao desenvolvimento e à conservação, a maior parte do apoio internacional deste país à conservação da biodiversidade “provém de fontes privadas, especialmente através de grandes ONG internacionais, como a WWF, a Wildlife Conservation Society, a Nature Conservancy, a Conservation International, a African Wildlife Foundation e a Fauna & Flora”.

Estas organizações, para Jorge Palmeirim, “desempenham um papel extremamente importante que deverá continuar, apesar de,em alguns casos também serem afetadas pelos cortes no financiamento governamental. É portanto certo que os EUA vão continuar a desempenhar um papel muito importante na conservação da biodiversidade global”, acredita.

E que efeitos terá esta saída norte-americana na posição europeia em matéria de conservação?

Fica em aberto saber se a União Europeia quer continuar a defender as políticas ambientais, “sendo para isso necessário aumentar o seu investimento financeiro, o que na situação política atual está (ou passará) a ser muito difícil”, salienta Maria Amélia Martins-Loução.

Outra pergunta em cima da mesa é se os estados norte-americanos que o pretendam, como a Califórnia, poderão “aderir diretamente à UICN, tentando manter laços institucionais apesar da posição federal, mesmo apoiados por organizações não governamentais”.


Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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