Muitos animais, incluindo tartarugas-marinhas, aves e morcegos, recorrem ao campo magnético terrestre para voarem sem se perder, por exemplo em longas rotas de migração. Mas como é que o fazem?
Uma equipa de neurocientistas da Ludwig Maximilian University of Munich foi à procura de respostas para esta e outras perguntas que desde há muito intrigam os investigadores.
Por exemplo, onde é que no corpo se localiza o sistema que deteta o campo magnético? E que circuito cerebral é responsável por esta tarefa?
O campo magnético tem origem no núcleo de metal líquido que se encontra no centro do globo terrestre e que funciona como um enorme imã, com um pólo positivo e outro negativo. Também conhecido como magnetoesfera, este campo funciona como uma “camada” de forças entre os dois pólos, que rodeia o planeta e o protege das partículas carregadas pelos ventos solares e da radiação que chega do espaço.
Mas não só. É graças a este mecanismo, que serve de base ao funcionamento das bússolas, que também muitos animais se conseguem orientar, por terem uma espécie de “bússola” interna.
O naturalista francês Camille Viguier esteve entre os primeiros investigadores a defenderem a existência deste sentido magnético interno, em 1882, o que se veio a provar verdadeiro. Mas tanto tempo depois, pouco se sabe ainda sobre o seu funcionamento.

Pombo-das-rochas (Columba livia). Foto: dbmcc09/Wiki Commons
Camille Viguier propôs também que esse sentido poderia funcionar no ouvido interno, através da geração de pequenos estímulos elétricos, mas a ideia ficou esquecida. Agora, uma equipa de cientistas da LMU decidiu colocar essa teoria à prova, através do estudo dos cérebros de pombos submetidos a campos magnéticos, uma vez que estas aves são conhecidas pelo seu sentido de orientação apurado. Quem nunca ouviu falar dos pombos-correio? Os resultados foram publicados esta quinta-feira pela revista científica Science.
“Técnicas inovadoras de microscopia (observação com microscópio) permitiram-nos identificar circuitos especializados que processam informação magnética”, informou a equipa, numa nota de imprensa divulgada pela universidade alemã. Grégory Nordmann e Spencer Balay, dois estudantes de doutoramento, observaram uma forte ativação numa região do cérebro conhecida como núcleo vestibular, que está ligada ao ouvido interno.
O mesmo que os tubarões
Os investigadores fizeram também análises genéticas a amostras retiradas do ouvido interno dos pombos, que revelaram a existência de células que têm sensores elétricos altamente sensíveis – os mesmos que os tubarões utilizam, aliás, para detetarem as suas presas.
“As células que descrevemos estão perfeitamente equipadas para detetarem campos magnéticos ao usarem indução eletromagnética, o que permite aos pombos encontrarem o caminho para casa usando o mesmo princípio físico que permite o carregamento das baterias de telefones sem fios”, explica a equipa. Em ambos os casos, um impulso magnético é convertido num sinal elétrico, o que no caso dos pombos “carrega” o seu GPS natural.
Ainda assim, sabe-se que esta não é a única estratégia que os animais utilizam para sentir o campo magnético terrestre. “Os nossos dados sugerem que existe um ‘dark compass’ no ouvido interno” – ou seja, um mecamismo semelhante a um analisador de espectro de frequências e sinais de última geração – afirma o líder deste estudo, David Keays. “Outros estudos apontam para uma bússola dependente da luz, que funciona no sistema visual”.
“É muito provável que a magneto-receção tenha evoluído de forma convergente em diferentes organismos”, o que acontece quando animais ou plantas que não são da mesma família chegam a soluções semelhantes, para lidarem com ambientes ou desafios parecidos. “Restam ainda muitas coisas para descobrirmos”, conclui o professor da LMU.